terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Das incertezas - Kate



Quanto mais vivo, menos sei…
É esta a certeza que se cristaliza à medida que passam meus dias aqui neste planeta.
Se a Terra é redonda,
Se nos movemos devagar a volta do Sol,
Estas são somente formas racionais de vermos o mundo.

Mas acumulam-se as incertezas junto às horas que me são acrescentadas.
Se eu sou boa,
Se há outras dimensões fora daqui,
Estes são apenas ínfimos pedaços das dúvidas que carrego em minha lista.

As únicas certezas que se afirmam a cada dia para mim:
O dia é hoje, o momento é agora, o movimento é já.

sábado, 4 de dezembro de 2010

O Amor tem de ser livre - Kate

Ninguém precisa trazer o amor em rédeas
Não é necessário mostrar-lhe a direção
Nem apontar o caminho

O amor não precisa de justificativas
Para se lembrar de como deve ser

Por isto, pararei de procurar o amor
Ele virá me encontrar onde eu estiver
Não farei esforço
Não me esgueirarei pelas ruas ou vielas
Gritando seu nome,
Ele virá ao meu encontro

Tão fresco e tão puro
Quanto deve ser

Tão suave e quente
Quanto se espera

A partir de hoje,
Não farei esforços, amor
Esperarei até que você mesmo grite o meu nome.


porque preciso ser achada)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Medos que Crescem Conosco (Comigo) - Kate





Quando eu era criança, as viagens mais longas de que me recordo (as únicas que fiz nessa época) eram as que fazíamos todos os anos para a cidade dos meus avós no interior do estado (coisa de 200km no máximo). A medida que nos afastávamos da paisagem conhecida e eu ia acompanhando as luzes das novas cidades por onde passávamos, uma angústia ia se assomando dentro de mim. Só diminuía quando chegávamos na casa dos meus avós e só passava em definitivo quando voltávamos para casa. Quando eu via o mato crescido no quintal, quando o cheiro de poeira entrava em meu nariz, só então meu coração se aliviava por estar no meu lugar, em minha casa.
As viagens noturnas eram meus maiores suplícios. Eu olhava aquelas luzes todas das cidades do caminho, as pessoas desconhecidas sentadas nas calçadas, caminhando pela rua, cruzando com nosso carro, assustada em contemplar o desconhecido.
Hoje, trinta anos depois, os mesmos sentimentos me tomam, quando caminho por um país desconhecido e um terror quer tomar conta de mim quando percebo que é necessário cruzar o oceano para sentir novamente o cheiro da minha cidade.

sábado, 11 de setembro de 2010

Reinventar-se - Renata

FÉ
Desistiu de esperar pelo o que nunca veio.

Escrevi esse microconto na oficina "soltando a língua", ministrada pelo Marcelino Freire. Inspirei-me no mito que circula sobre a morte do pensador Walter Benjamin, que teria se suicidado, temendo ser capturado pela Gestapo; ele teria fugido para os Pirineus, onde seria resgatado por compatriotas judeus, mas, desistiu de esperar, se matou e o resgate chegou logo em seguida. Ouvi essa história na faculdade e ficou para mim como um amuleto em momentos, como agora, em que minha fé está debilitada.

A vida não tem sentido, mas, como ser humano, eu preciso criar um sentido para a minha vida, senão, ela não vale o esforço que eu faço para vivê-la. Hoje tive a minha primeira aula na pós e lá ouvi do professor, que citou a Santaella, que as melhores coisas da vida não servem para nada, mas, fruí-las é um prazer, que, por si só, serve para nos mover adiante. Percebi o quanto gosto de estudar, de aprender e de compartilhar o que penso e sinto com as pessoas. Apenas preciso aprender a compartilhar com aquelas que tem interesse no que se passa em minha cabeça e em meu coração.

O trabalho costumava ser uma experiência enriquecedora, capaz de recarregar minha fé nessa minha existência. Há algum tempo deixou de ser assim. Não sei se são meus colegas ou o trabalho que deixou de me inspirar e de me dar prazer em fruí-lo. Não sei. Reconheço que é hora de me reinventar como profissional, como mulher e como pessoa. Como será isso eu não faço ideia. Ainda. Mas, terei mais paciência que Benjamin e esperarei pelo resgate.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

SOBRE PÁSSAROS - Kate



OS QUE ESTÃO VOANDO E PRINCIPALMENTE OS QUE ESTÃO PRESOS NO CHÃO


Nos meus banhos de sol, quase diários, caço pássaros.

Não tenho armas, sequer um apito, mas fixo meus olhos no céu, mesmo em dias de sol forte e apuro as vistas até que consiga enxergar um.

Estes são os melhores momentos do meu dia e quando não vejo nenhum, fecho os olhos, sinto o vento soprar suave na minha pele e lembro de cada pássaro que vi até aquele dia. Lembro detalhes como voos em espirais, asas retesadas, assobios estridentes. Qualquer lembrança é suficiente para me fazer sorrir, aqui embaixo.

Quando vejo algum diferenciado, pego lápis e papel e arrisco um desenho. Tudo para que nenhum detalhe se perca. Tudo para que, em dias nublados, como os de agora, eu não esqueça que voar é meu objetivo de vida…


(porque nunca devemos esquecer quem somos, de onde viemos e onde queremos chegar)

domingo, 5 de setembro de 2010

Depois da tormenta - Renata

Quinta-feira, 02 de setembro de 2010, começou a minha terapia. Haviam me dito que as vagas abririam apenas em 2011 e eu já estava procurando outra alternativa quando recebi o telefonema agendando a primeira consulta, para o dia seguinte.

Cheguei mais cedo e aproveitei para passar no Núcleo de Pesquisa onde participei de uma prova de seleção para um curso de especialização na minha área. Há quase duas semanas eu estava aguardando o resultado do processo seletivo e por isso resolvi descobrir o porquê da demora. Tive uma surpresa agradabilíssima, pois minha dissertação recebeu a nota máxima e por mérito terei isenção na mensalidade do curso, que terá duração de 1 ano e meio. Meu e-mail havia sido digitado errado, por essa razão, o resultado nunca chegou para mim. De certa maneira, foi mais gostoso receber a grande novidade pessoalmente.

Naquele dia chorei um pouquinho na terapia, mas saí de lá radiante, feliz da vida, porque agora tenho uma motivação, voltar a estudar, a aprender coisas novas, conhecer pessoas diferentes. Fui caminhando até o ponto do ônibus distribuindo sorrisos e estou assim até hoje.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Renascer - Renata

Tenho uma vida boa, cheia de saúde, amigos atenciosos e familiares amorosos. Trabalho na profissão que escolhi e com ela tenho conseguido pagar as minhas contas. Por que eu me sinto tão infeliz a ponto de chorar todos os dias, em qualquer lugar e na frente de qualquer pessoa? De onde vem tanta tristeza?

No dia em que me despedi de Kate, peguei um trem na Estação de Osasco, sentido Estação Morumbi, às 17h30. O vagão saiu cheio e não parou de entrar gente, de modo que tive de saltar uma estação antes, na Berrini, as custas de um pequeno "surto". Gritei, com a voz embargada, para que segurassem a porta pra que eu pudesse descer, senão eu iria morrer. Só me dei conta das palavras que havia proferido quando caminhava pela Berrini com os olhos cheios de lágrimas, tentando dar um sentido para aquilo tudo... O trem no qual eu estava já era o segundo ou o terceiro que passava lotado naquela estação, o que explicava o fato de as pessoas terem forçado a entrada no vagão, mesmo sem ter espaço. Os paulistanos vivem essa rotina diariamente e, mesmo insatisfeitos com ela, parecem se adaptar, como se não houvesse outra alternativa. Será que não há?

Depois de caminhar mais de meia hora, encontrei minha prima querida e seu abraço e carinho foram tão acalentadores e revigorantes, que a minha existência, naquele momento particular, pareceu adquirir sentido outra vez.

Na sexta-feira passada, de novo, estava eu chorando no ônibus de volta para a casa, às 18h. O tráfego era intenso assim como as lágrimas que não paravam de escorrer. Quando eu choro em público, na maioria das vezes, consigo conter os espasmos musculares do rosto e só. Choro quietinha para não importunar ninguém e sempre carrego meus lenços Kiss. Curiosamente, as pessoas sentem-se incomodadas quando percebem o outro nessa situação e com o senhor que estava sentado ao meu lado não foi diferente. Na primeira oportunidade, ele engatou uma conversa comigo: falamos sobre o trânsito, ele imendou com assuntos de trabalho, contou sobre sua esposa e filhos e, quando nos demos conta, chegou a hora de ele descer. Conversar com aquele senhor fez com que, por aqueles momentos, a minha tristeza ficasse suspensa e as minhas lágrimas parassem de cair. Eu estava esgotada emocionalmente e esse papo permitiu que eu descansasse de mim mesma.

Quando chegou a minha vez de descer, segui para o SESI e fiquei assistindo a aula de Power Jump na qual eu estaria se não tivesse pegado trânsito. A música alta e a energia da aula continuaram mantendo minha tristeza em suspenso. Voltando pra casa, ouvi o recado de um colega de trabalho dizendo que tínhamos feito uma boa reunião e que tinha ficado feliz por eu ter tocado (e bem) boa parte dela. Não sei se pela confluência de tudo isso, mas, tive um fim de semana bom, agradável. No sábado estive na companhia dos meus amigos da arqueologia, com os quais trabalho atualmente; percebi o quanto me sinto a vontade e feliz ao lado deles, mesmo não compreendendo muito das piadas e dos assuntos sobre os quais eles conversam. Pensei como a vida pode ser boa. Domingo comemos uma comida saborosa aqui em casa com os tios de Sorocaba, que são sempre muito carinhosos.

Acho que, como a maioria dos seres humanos, tenho o instinto de sobrevivência e, talvez por isso, eu esteja sempre buscando maneiras de sair do pântano no qual me encontro. Suicídio não é uma opção para mim, por isso, fui procurar a terapia, que deverei começar em breve. Terei muito assunto para escrever.

Acho que está na hora de eu renascer, de novo!