segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Medos que Crescem Conosco (Comigo) - Kate





Quando eu era criança, as viagens mais longas de que me recordo (as únicas que fiz nessa época) eram as que fazíamos todos os anos para a cidade dos meus avós no interior do estado (coisa de 200km no máximo). A medida que nos afastávamos da paisagem conhecida e eu ia acompanhando as luzes das novas cidades por onde passávamos, uma angústia ia se assomando dentro de mim. Só diminuía quando chegávamos na casa dos meus avós e só passava em definitivo quando voltávamos para casa. Quando eu via o mato crescido no quintal, quando o cheiro de poeira entrava em meu nariz, só então meu coração se aliviava por estar no meu lugar, em minha casa.
As viagens noturnas eram meus maiores suplícios. Eu olhava aquelas luzes todas das cidades do caminho, as pessoas desconhecidas sentadas nas calçadas, caminhando pela rua, cruzando com nosso carro, assustada em contemplar o desconhecido.
Hoje, trinta anos depois, os mesmos sentimentos me tomam, quando caminho por um país desconhecido e um terror quer tomar conta de mim quando percebo que é necessário cruzar o oceano para sentir novamente o cheiro da minha cidade.

sábado, 11 de setembro de 2010

Reinventar-se - Renata

FÉ
Desistiu de esperar pelo o que nunca veio.

Escrevi esse microconto na oficina "soltando a língua", ministrada pelo Marcelino Freire. Inspirei-me no mito que circula sobre a morte do pensador Walter Benjamin, que teria se suicidado, temendo ser capturado pela Gestapo; ele teria fugido para os Pirineus, onde seria resgatado por compatriotas judeus, mas, desistiu de esperar, se matou e o resgate chegou logo em seguida. Ouvi essa história na faculdade e ficou para mim como um amuleto em momentos, como agora, em que minha fé está debilitada.

A vida não tem sentido, mas, como ser humano, eu preciso criar um sentido para a minha vida, senão, ela não vale o esforço que eu faço para vivê-la. Hoje tive a minha primeira aula na pós e lá ouvi do professor, que citou a Santaella, que as melhores coisas da vida não servem para nada, mas, fruí-las é um prazer, que, por si só, serve para nos mover adiante. Percebi o quanto gosto de estudar, de aprender e de compartilhar o que penso e sinto com as pessoas. Apenas preciso aprender a compartilhar com aquelas que tem interesse no que se passa em minha cabeça e em meu coração.

O trabalho costumava ser uma experiência enriquecedora, capaz de recarregar minha fé nessa minha existência. Há algum tempo deixou de ser assim. Não sei se são meus colegas ou o trabalho que deixou de me inspirar e de me dar prazer em fruí-lo. Não sei. Reconheço que é hora de me reinventar como profissional, como mulher e como pessoa. Como será isso eu não faço ideia. Ainda. Mas, terei mais paciência que Benjamin e esperarei pelo resgate.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

SOBRE PÁSSAROS - Kate



OS QUE ESTÃO VOANDO E PRINCIPALMENTE OS QUE ESTÃO PRESOS NO CHÃO


Nos meus banhos de sol, quase diários, caço pássaros.

Não tenho armas, sequer um apito, mas fixo meus olhos no céu, mesmo em dias de sol forte e apuro as vistas até que consiga enxergar um.

Estes são os melhores momentos do meu dia e quando não vejo nenhum, fecho os olhos, sinto o vento soprar suave na minha pele e lembro de cada pássaro que vi até aquele dia. Lembro detalhes como voos em espirais, asas retesadas, assobios estridentes. Qualquer lembrança é suficiente para me fazer sorrir, aqui embaixo.

Quando vejo algum diferenciado, pego lápis e papel e arrisco um desenho. Tudo para que nenhum detalhe se perca. Tudo para que, em dias nublados, como os de agora, eu não esqueça que voar é meu objetivo de vida…


(porque nunca devemos esquecer quem somos, de onde viemos e onde queremos chegar)

domingo, 5 de setembro de 2010

Depois da tormenta - Renata

Quinta-feira, 02 de setembro de 2010, começou a minha terapia. Haviam me dito que as vagas abririam apenas em 2011 e eu já estava procurando outra alternativa quando recebi o telefonema agendando a primeira consulta, para o dia seguinte.

Cheguei mais cedo e aproveitei para passar no Núcleo de Pesquisa onde participei de uma prova de seleção para um curso de especialização na minha área. Há quase duas semanas eu estava aguardando o resultado do processo seletivo e por isso resolvi descobrir o porquê da demora. Tive uma surpresa agradabilíssima, pois minha dissertação recebeu a nota máxima e por mérito terei isenção na mensalidade do curso, que terá duração de 1 ano e meio. Meu e-mail havia sido digitado errado, por essa razão, o resultado nunca chegou para mim. De certa maneira, foi mais gostoso receber a grande novidade pessoalmente.

Naquele dia chorei um pouquinho na terapia, mas saí de lá radiante, feliz da vida, porque agora tenho uma motivação, voltar a estudar, a aprender coisas novas, conhecer pessoas diferentes. Fui caminhando até o ponto do ônibus distribuindo sorrisos e estou assim até hoje.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Renascer - Renata

Tenho uma vida boa, cheia de saúde, amigos atenciosos e familiares amorosos. Trabalho na profissão que escolhi e com ela tenho conseguido pagar as minhas contas. Por que eu me sinto tão infeliz a ponto de chorar todos os dias, em qualquer lugar e na frente de qualquer pessoa? De onde vem tanta tristeza?

No dia em que me despedi de Kate, peguei um trem na Estação de Osasco, sentido Estação Morumbi, às 17h30. O vagão saiu cheio e não parou de entrar gente, de modo que tive de saltar uma estação antes, na Berrini, as custas de um pequeno "surto". Gritei, com a voz embargada, para que segurassem a porta pra que eu pudesse descer, senão eu iria morrer. Só me dei conta das palavras que havia proferido quando caminhava pela Berrini com os olhos cheios de lágrimas, tentando dar um sentido para aquilo tudo... O trem no qual eu estava já era o segundo ou o terceiro que passava lotado naquela estação, o que explicava o fato de as pessoas terem forçado a entrada no vagão, mesmo sem ter espaço. Os paulistanos vivem essa rotina diariamente e, mesmo insatisfeitos com ela, parecem se adaptar, como se não houvesse outra alternativa. Será que não há?

Depois de caminhar mais de meia hora, encontrei minha prima querida e seu abraço e carinho foram tão acalentadores e revigorantes, que a minha existência, naquele momento particular, pareceu adquirir sentido outra vez.

Na sexta-feira passada, de novo, estava eu chorando no ônibus de volta para a casa, às 18h. O tráfego era intenso assim como as lágrimas que não paravam de escorrer. Quando eu choro em público, na maioria das vezes, consigo conter os espasmos musculares do rosto e só. Choro quietinha para não importunar ninguém e sempre carrego meus lenços Kiss. Curiosamente, as pessoas sentem-se incomodadas quando percebem o outro nessa situação e com o senhor que estava sentado ao meu lado não foi diferente. Na primeira oportunidade, ele engatou uma conversa comigo: falamos sobre o trânsito, ele imendou com assuntos de trabalho, contou sobre sua esposa e filhos e, quando nos demos conta, chegou a hora de ele descer. Conversar com aquele senhor fez com que, por aqueles momentos, a minha tristeza ficasse suspensa e as minhas lágrimas parassem de cair. Eu estava esgotada emocionalmente e esse papo permitiu que eu descansasse de mim mesma.

Quando chegou a minha vez de descer, segui para o SESI e fiquei assistindo a aula de Power Jump na qual eu estaria se não tivesse pegado trânsito. A música alta e a energia da aula continuaram mantendo minha tristeza em suspenso. Voltando pra casa, ouvi o recado de um colega de trabalho dizendo que tínhamos feito uma boa reunião e que tinha ficado feliz por eu ter tocado (e bem) boa parte dela. Não sei se pela confluência de tudo isso, mas, tive um fim de semana bom, agradável. No sábado estive na companhia dos meus amigos da arqueologia, com os quais trabalho atualmente; percebi o quanto me sinto a vontade e feliz ao lado deles, mesmo não compreendendo muito das piadas e dos assuntos sobre os quais eles conversam. Pensei como a vida pode ser boa. Domingo comemos uma comida saborosa aqui em casa com os tios de Sorocaba, que são sempre muito carinhosos.

Acho que, como a maioria dos seres humanos, tenho o instinto de sobrevivência e, talvez por isso, eu esteja sempre buscando maneiras de sair do pântano no qual me encontro. Suicídio não é uma opção para mim, por isso, fui procurar a terapia, que deverei começar em breve. Terei muito assunto para escrever.

Acho que está na hora de eu renascer, de novo!

segunda-feira, 14 de junho de 2010

De segredos e de olhares - Kate




Guardo segredos da alma

Guardo segredos na alma

Quem os descobre?

Quem me vê?


Guardo segredos por trás dos olhos

Guardo segredos em minha boca fechada

Guardo um coração aberto

Quem o descobrirá?


Minha vida,

Segredos

Abertos

Coração

Aberto

Olhos

Fechados

Peito

Nu

(porque o segredo está em não guardar segredos, porque há Um que a tudo vê...)





domingo, 23 de maio de 2010

"Garoto Interrompido" - Renata

Hoje acordei amuada. Tentei dar seguimento aos meus estudos, mesmo sendo domingo, até para espairecer e deixar o tempo passar. O máximo que consegui foi terminar um capítulo que comecei a ler na sexta-feira e que já estava perto do fim. Minha mãe também acordou se sentindo assim, então passamos a manhã conversando sobre como nos sentíamos simplesmente insatisfeitas hoje e, juntas, buscamos explicações racionais para esse sentimento.

O clima intensifica a melancolia, é claro: além de frio, o céu está cinza e cai uma garoa fina. Na minha opinião, o Sol contribui muito mais para o bom humor do que um céu nublado.

Juntas, minha mãe e eu conseguimos enumerar alguns pequenos acontecimentos que, em conjunto, poderiam ter desencadeado essa insatisfação em cada uma de nós. Todos eles insignificantes, é claro. Nenhum deles apresentava qualquer fator irreversível ou nos afetava de maneira mais grave, ou seja, em nada alteravam nossas vidas; além do mais, sobre nenhum deles tínhamos controle. O Sol, por exemplo, por volta das 13h apareceu esplendoroso e encheu nossa sala com uma luz aconchegante, que em nada se parecia com a manhã cinza que havíamos presenciado - agora, 15:46, entretanto, o cinza voltou a reinar absoluto.

Minha mãe e eu, cada uma a sua maneira, nos engajamos em atividades prazeirosas: ela foi pintar e decorar camisetas e eu fui ler um romance. Depois do almoço, liguei a tv e estava começando um documentário norte-americano chamado "Boy Interrupted", dirigido por um casal de cineastas, cujo filho adolescente cometeu suicídio aos 15 anos de idade. O filme era, ao mesmo tempo, uma tentativa de lidar com a perda e de tentar, no meio desse processo, entender o que deu errado.

O casal construiu o documentário a partir de vídeos familiares gravados desde o nascimento do garoto Evan até pouco antes de sua morte. Desde a tenra infância o garoto apresentava sinais de depressão e aos sete anos de idade foi diagnosticado como Bipolar II, estágio onde a depressão se manifesta. Essa descoberta veio depois que o garoto subiu no telhado do prédio escolar de seis andares e ficou na beirada dele simplesmente mirando o chão. Antes disso, Evan já falava em suicídio, fazendo com que a "arte" de subir no telhado ganhasse proporções mais sérias.

Evan foi internado em duas clínicas, tomou medicação para equilibrar quimicamente as substâncias responsáveis por sua depressão e recebeu toda a atenção que a família podia dar. Na adolescência, foi matriculado em um colégio comum, após sair da clínica de reabilitação, fez amigos e era um estudante exemplar. Todo esse movimento não impediu, entretanto, que ele cometesse o suicídio, atirando-se pela janela do apartamento onde morava com os pais e o irmão mais novo. O garoto deixou uma carta extremamente racional, elencando seis motivos para morrer e seis para viver; apesar de empatados, o rapaz estava certo de que o caminho a seguir era, senão, a morte.

Ao longo do documentário e depois dele ficou a compreensão emocional de uma constatação que ouvi inúmeras vezes nas discussões universitárias sobre como essa insatisfação inerente ao ser humano é uma das molas propulsoras do consumo, senão a mais importante delas.

Minha mãe, eu, você, o Evan, todos temos uma insatisfação inerente que simplesmente é, sem outra razão de ser, senão simplesmente existir. Alguns de nós buscam conforto no consumo de filmes felizes, outros no consumo de roupas da moda (que nem sempre caem bem); outros ainda buscam algum conforto na religiosidade, nos estudos ou no trabalho. Acrescento também os que buscam conforto no sexo, na bebida e na comida.

Buscamos todos os dias algum conforto, algo que nos tire a atenção dessa insatisfação chata, que é como um beliscão leve, mas que dói e irrita porque é constante.

Muitos de nós consegue seguir adiante com a retroalimentação do conforto. Outros, como Evan, simplesmente não suportam a dor e vêem na morte a única maneira de escapar dela.

Atualmente minha fuga, ops, conforto tem sido a leitura de livros para me preparar para uma especialização que tenho interesse em fazer. Além do mais, adoro pensar no futuro como um período de possibilidades e cheio de confortos, alguns desses eu ainda nem conheço. É isso que me mantém sempre em frente!