segunda-feira, 14 de junho de 2010

De segredos e de olhares - Kate




Guardo segredos da alma

Guardo segredos na alma

Quem os descobre?

Quem me vê?


Guardo segredos por trás dos olhos

Guardo segredos em minha boca fechada

Guardo um coração aberto

Quem o descobrirá?


Minha vida,

Segredos

Abertos

Coração

Aberto

Olhos

Fechados

Peito

Nu

(porque o segredo está em não guardar segredos, porque há Um que a tudo vê...)





domingo, 23 de maio de 2010

"Garoto Interrompido" - Renata

Hoje acordei amuada. Tentei dar seguimento aos meus estudos, mesmo sendo domingo, até para espairecer e deixar o tempo passar. O máximo que consegui foi terminar um capítulo que comecei a ler na sexta-feira e que já estava perto do fim. Minha mãe também acordou se sentindo assim, então passamos a manhã conversando sobre como nos sentíamos simplesmente insatisfeitas hoje e, juntas, buscamos explicações racionais para esse sentimento.

O clima intensifica a melancolia, é claro: além de frio, o céu está cinza e cai uma garoa fina. Na minha opinião, o Sol contribui muito mais para o bom humor do que um céu nublado.

Juntas, minha mãe e eu conseguimos enumerar alguns pequenos acontecimentos que, em conjunto, poderiam ter desencadeado essa insatisfação em cada uma de nós. Todos eles insignificantes, é claro. Nenhum deles apresentava qualquer fator irreversível ou nos afetava de maneira mais grave, ou seja, em nada alteravam nossas vidas; além do mais, sobre nenhum deles tínhamos controle. O Sol, por exemplo, por volta das 13h apareceu esplendoroso e encheu nossa sala com uma luz aconchegante, que em nada se parecia com a manhã cinza que havíamos presenciado - agora, 15:46, entretanto, o cinza voltou a reinar absoluto.

Minha mãe e eu, cada uma a sua maneira, nos engajamos em atividades prazeirosas: ela foi pintar e decorar camisetas e eu fui ler um romance. Depois do almoço, liguei a tv e estava começando um documentário norte-americano chamado "Boy Interrupted", dirigido por um casal de cineastas, cujo filho adolescente cometeu suicídio aos 15 anos de idade. O filme era, ao mesmo tempo, uma tentativa de lidar com a perda e de tentar, no meio desse processo, entender o que deu errado.

O casal construiu o documentário a partir de vídeos familiares gravados desde o nascimento do garoto Evan até pouco antes de sua morte. Desde a tenra infância o garoto apresentava sinais de depressão e aos sete anos de idade foi diagnosticado como Bipolar II, estágio onde a depressão se manifesta. Essa descoberta veio depois que o garoto subiu no telhado do prédio escolar de seis andares e ficou na beirada dele simplesmente mirando o chão. Antes disso, Evan já falava em suicídio, fazendo com que a "arte" de subir no telhado ganhasse proporções mais sérias.

Evan foi internado em duas clínicas, tomou medicação para equilibrar quimicamente as substâncias responsáveis por sua depressão e recebeu toda a atenção que a família podia dar. Na adolescência, foi matriculado em um colégio comum, após sair da clínica de reabilitação, fez amigos e era um estudante exemplar. Todo esse movimento não impediu, entretanto, que ele cometesse o suicídio, atirando-se pela janela do apartamento onde morava com os pais e o irmão mais novo. O garoto deixou uma carta extremamente racional, elencando seis motivos para morrer e seis para viver; apesar de empatados, o rapaz estava certo de que o caminho a seguir era, senão, a morte.

Ao longo do documentário e depois dele ficou a compreensão emocional de uma constatação que ouvi inúmeras vezes nas discussões universitárias sobre como essa insatisfação inerente ao ser humano é uma das molas propulsoras do consumo, senão a mais importante delas.

Minha mãe, eu, você, o Evan, todos temos uma insatisfação inerente que simplesmente é, sem outra razão de ser, senão simplesmente existir. Alguns de nós buscam conforto no consumo de filmes felizes, outros no consumo de roupas da moda (que nem sempre caem bem); outros ainda buscam algum conforto na religiosidade, nos estudos ou no trabalho. Acrescento também os que buscam conforto no sexo, na bebida e na comida.

Buscamos todos os dias algum conforto, algo que nos tire a atenção dessa insatisfação chata, que é como um beliscão leve, mas que dói e irrita porque é constante.

Muitos de nós consegue seguir adiante com a retroalimentação do conforto. Outros, como Evan, simplesmente não suportam a dor e vêem na morte a única maneira de escapar dela.

Atualmente minha fuga, ops, conforto tem sido a leitura de livros para me preparar para uma especialização que tenho interesse em fazer. Além do mais, adoro pensar no futuro como um período de possibilidades e cheio de confortos, alguns desses eu ainda nem conheço. É isso que me mantém sempre em frente!

terça-feira, 6 de abril de 2010

Passa tempo - Renata

Li certa vez que o melhor a fazer enquanto se espera (por qualquer coisa) é encontrar ocupações. Pois eu tenho procurado várias: tarefas domésticas diárias, leituras de livros, assistir filmes em DVD, sair para tomar um café com amigos no meio de uma tarde de semana, dormir ... Entretanto, pensar é o que tem de fato me ocupado. Pensar no futuro, na minha profissão, no que estou fazendo (ou não) da minha vida.

Um pouco antes de o projeto no qual eu estava trabalhando acabar, fui com familiares jantar em um restaurante japonês. Coincidência ou não, a mensagem do biscoito da sorte dizia:

"Você passará por um teste difícil
que o tornará mais feliz."

Não tenho dúvida de que sobreviver aos meus próprios pensamentos é esse teste. Para mim não há nada mais atemorizante do que eles.

Tenho lido (quando consigo me concentrar) "O Livro Tibetano dos Mortos", uma leitura budista praticada para ajudar o morto a encontrar seu caminho no Bardo, aquele entre a morte e o renascimento. O que me atraiu nessa leitura foi que para os budistas, aprender a morrer é aprender a viver. Até onde eu li, a consciência ao deixar o corpo físico se depara com três estágios nos quais tem a possibilidade de transcender ao nirvana. Em contrapartida, essa mesma consciência sofre a influência ilusória dos desejos e pensamentos da existência prévia e esses, ao mesmo tempo em que maravilham, atemorizam, confundem e afastam a consciência da divina luz. A consciência, incapaz de atingir o nirvana, reencarna.

Nem preciso dizer que ainda viva e longe de atingir o nirvana, encontro-me na mesma situação.

Alguns filósofos dizem que o segredo para uma boa vida é privá-la de desejo. Outros retrucam que privando-a de desejo, privam-na também de vida. Os desejos ao mesmo tempo que nos impulsionam, podem transformar a vida num fardo.

Os meus parecem tão distantes e, às vezes, nem parecem meus. Desejo viver um grande amor, desejo trabalhar num ambiente agradável, fazendo o que gosto e ganhando dinheiro. Desejo conviver bem com meus ambíguos sentimentos e, desejo mais do que tudo, sossego mental!

Dizem que conseguir tudo ao mesmo tempo é praticamente impossível, mas cultivo a esperança de um dia conquistar o impossível. Estive bem próxima do que considero o sossego mental, quando estive em Natal no réveillon de 2009/2010. Claro que o ambiente, as companhias e o fato de eu estar de férias recebendo salário contribuíram para essa conquista. Ajuda saber que já experienciei a sensação que busco, pois isso a torna real, possível.

Por outro lado, o dia a dia transforma essa minha busca numa maratona exaustiva e confusa, regada a opiniões diversas sobre quem sou e o que devo fazer da minha vida.

Há um filósofo moderno que diz que o melhor dia é aquele no qual não pensamos em nós mesmos. Concordo plenamente. Estou exausta de mirar meu próprio umbigo e na tentativa de mudar de foco, resolvi me expor um tanto mais neste blog para ver se, dessa maneira, sacio meu ego e ele pára de me importunar. Pelo menos por ora.

Observação: assim que publiquei o texto acima, recebi uma mensagem de celular de um amigo que está cursando filosofia. Achei que a frase faz relação com este.

"A vida nada mais é que a produção de um cadáver." (Walter Benjamin)

domingo, 28 de março de 2010

E agora? - Renata

Amanhã será um dia importante para mim, pois poderá definir os próximos passos em direção ao meu futuro profissional. Estou ansiosa e dormi mal a noite passada. Resolvi escrever para liberar um pouco dessa aflição que me agonia!

Enquanto me questiono sobre o que poderia ser o tema da avaliação e dentro do que imagino que seja, me preparo para ele, não consigo deixar de pensar que somos muitos e todos batalhando por uma única vaga. Esse fato é o que mais me angustia, seguido pelo questionamento sobre o que farei se essa oportunidade específica não se concretizar.

Nessa hora eu gostaria de ouvir de uma pessoa com habilidade de antever o futuro que a vaga será minha ou que, se não for o caso, outra oportunidade tão boa quanto essa de amanhã surgirá muito em breve. No atual momento, a única pessoa que tem dito isso para mim tem sido eu mesma e eu, (in)felizmente não tenho tal dom.

O jeito é continuar seguindo às escuras, dando o melhor de mim e esperando para ver se este foi suficiente por agora.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Mais um dia - Renata

Hoje acordei de mal humor. Dormi pouco, tenho trabalhado 12 horas por dia, ainda não consegui uma brecha pra ir cortar os cabelos. Há pouco, como em todos os dias, vim num ônibus lotado, no qual entrei e fiquei na mesma posição por dez minutos, aguardando que alguns dos muitos passageiros descessem para que eu pudesse me posicionar de maneira menos incômoda.

Enquanto o ônibus chacoalhava, eu pensava: "que merda que é isso!"

Há dias que são mais difíceis que outros. Os questionamentos vão longe e o propósito da existência parece ainda mais vazio. Mas, como o trabalho e a vida seguem, não há muito o que fazer senão seguir também. E eu continuo seguindo, por mais um dia.

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

Mais sobre imagens (na realidade só uma, do mar...) – Kate



Sou privilegiada. Tenho diariamente mais de 10 quilômetros de mar para admirar na ida para o trabalho. Em dias alegres, abro um sorriso quando miro aquele enorme aquário gigante, simplesmente embevecida com aquela paisagem, ora incrivelmente verde, ora cheia de tonalidades azuis e em dias de céu nublado, cinzento e não menos belo. Nas manhãs melancólicas, abro um sorriso quando descubro aquela capa compacta balançando-se ao sabor do vento, formando marolas e ondas mais fortes. Devagar, ponho meu queixo no lugar devido e aperto um pouco mais os olhos para expandir a linha do horizonte. Minha miopia a deixa trêmula e ainda assim bastante encantadora.

O que mais me fascina no mar é a onda. Aquela espuma forte que vem com força quebrar na areia, lambendo as pedras, fazendo a festa dos surfistas. Uma onda quebrando é inspiração para dias difíceis, em que será necessário usar a força para afastar as pedras, associada à beleza nos gestos para manter a dignidade. Uma onda no mar traz a inspiração necessária para o equilíbrio no enfrentamento deste mar chamado rotina.

Uma onda dura o tempo necessário para se tornar majestosa, inesquecível... Vem se avolumando devagar junto a outros tantos litros de água salgada e de repente cresce, fica maior que todo o mar logo abaixo, causa vários sentimentos, medo ou alegria, admiração ou terror, depois se dobra com a força de si mesma e começa a desconstruir-se, de forma não menos bela, através da espuma branca, quando então volta completamente para o mar, incorpora-se a ele, tornando-se discreta, tornando-se apenas mar, para ajudar a formar, talvez, novas ondas.

Ondas são inspiradoras, num mar quase infinito, elas se destacam, atraindo a atenção para si.

Na volta para casa, não as vejo, engolidas pela potente escuridão da noite. A despeito disto, elas continuam a dar seu espetáculo. Não preciso ver, basta ouvir para sabê-las ali, firmes, breves e belas.

Geralmente chego ao meu destino com uma agradável sensação de pequenez, de brevidade, seja da tristeza, seja da melancolia e com novas sensações, de liberdade, de imensidão, de renovação da beleza, de majestade.

Uma boa onda é capaz de transformar meus sentimentos, diminui a dor e potencializa a felicidade... e elas nunca me deixam esquecer que nossa vida, a de cada um de nós, dura o tempo de uma onda...

segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

Ainda sobre o Silêncio - Kate



Ouvi, em dias recentes, que o silêncio é um dentre alguns poucos itens considerados valiosos neste século, junto ao tempo e ao espaço.
Ter silêncio virou objeto de desejo.
O homem aprendeu a falar há muitos anos, mas esqueceu-se do silêncio, desde então, foi pouco a pouco abandonando o silêncio num canto escuro, como se a evolução não combinasse com ele. Como se silêncio e crescimento não casassem. Deve ter havido tempo em que devia ser vergonhoso e pouco digno tanto silêncio.
Agora? Agora não!
Agora este é buscado e ansiado. Logo mais alguém inventará alguma forma de comercializá-lo, uma vez que em dias atuais tudo definitivamente é pensado em função do capital. Logo, teremos de comprar silêncio e haverá os que ganharão benefícios do estado com fartos nacos de silêncio grátis.
- Vai um silêncio aí? – vão nos gritar pelas janelas, nas ruas, no mundo virtual.
- Puxa! Meu marido vai me matar quando vir a fatura do cartão de crédito. Gastei até o limite com silêncio! – as esposas medrosas, mas consumistas vão se lamentar.
- Você viu no noticiário? Eles estavam contrabandeando silêncio e lucrando com isso! Onde é que vamos parar desse jeito? Será que não têm pena nem das crianças? Se continuar assim, elas jamais saberão como é o silêncio!– se revoltarão alguns.
Pensando assim, vivo intensamente cada silêncio que consigo. Assusta-me às vezes em que não consigo curtir o silêncio que me chega naturalmente, como se meus sentidos não soubessem mais do que se trata. Meus neurônios fazem suas sinapses e demoram cada vez mais tempo para clarear a informação: isso é silêncio! Ah!
Na realidade, o silêncio parece inversamente proporcional à presença humana: quanto mais gente, menor o silêncio.
Há que se esclarecer que a ausência de silêncio não significa uma interação profunda e empática entre as pessoas, muito pelo contrário. A falta dele é quebrada com sons que mais afastam que aproximam: carros, buzinas, músicas (algumas boas, a maioria ruins), gritos, xingamentos e palavras superficiais.
Palavras são boas para conectar pessoas, mas diálogos superficiais não nos levam a lugar algum. Parecem servir, na maioria das vezes, para multiplicar a distância, despistar desavisados ou freqüentemente não cairmos no desconfortável silêncio.
Silêncio, substantivo cheio de adjetivos contraditórios: desconfortável, desejado, difícil, calmante, irritante, poderoso.
Quando soubermos nos achegar uns aos outros em silêncio, nos encontrar em silêncio, nos sentirmos bem uns com os outros em silêncio, quando soubermos aguardar respostas em silêncio, quando o silêncio fizer parte de nossa humanidade, teremos enfim crescido.