domingo, 31 de março de 2013

Lar - Renata

Desde janeiro tenho duas casas, melhor dizendo, um lar e uma casa; o primeiro em Osasco e a segunda em Santo Amaro. Ambos têm características similares, cômodos de tamanhos equivalentes, há três dormitórios, dois banheiros, lavanderia e armário embutido na cozinha. Em Santo Amaro tenho uma sacada para uma avenida movimentada e barulhenta e em Osasco tenho uma janela com vista para a rodovia Castello Branco. Pela distância, o ruído contínuo dos carros fica suave e, curiosamente, agradável. Sinto falta desse som. Percebi nas duas últimas semanas como um lar me faz falta. Sinto tanto a ausência dele durante a semana, que evito vir para casa. Vou para o trabalho, onde também estão a academia e os restaurantes. Chego lá às 6h30 e tento sair de lá o mais tarde possível. Quando tenho dança, chego a sair depois das 22h30, só pra chegar em casa e dormir. Triste isso. Resultado: fico apática. Passeia os últimos 15 dias analisando meus sentimentos. Estou numa fase ótima de minha vida. Moro tão perto do trabalho, que não preciso usar transporte público durante a semana. Gasto apenas 20 minutos do meu dia com deslocamento, às vezes, menos, porque há sempre algum amigo do trabalho que passa pela minha rua na volta para casa. Gosto do que faço profissionalmente e tenho alguns colegas de trabalho com quem consigo discutir assuntos complexos, que me ajudam a amadurecer como pessoa e como profissional. Ou seja, não há motivo para ficar triste. Diante desse diagnóstico, analisei meus sentimentos e percebi que sentia falta da comida da minha mãe. Da combinação de temperos, dos ingredientes frescos, do aroma. A comida materna alimenta não só o corpo, como também a alma. Sempre que como a comida da minha mãe, lembro-me do som ligado na cozinha, dela acompanhando a música hummmmm, nanana... o barulho das panelas e do alho fritando. Lembro dela pedindo pra eu tirar as toalhas do varal para não pegar o cheiro da cebola frita. Isso é lar. É aconchegante, seguro, gostoso. Em Osasco, escolhi, junto com minha mãe, a decoração, cada móvel, as cortinas, o forro do sofá. O perfume da minha mãe, combinado com o meu creme de corpo, o cheirinho do Gleide e do amaciante de roupas cria um aroma de lar, que revigora. Em Santo Amaro não tenho isso. Primeiro, eu não cozinho. Não gosto, acho chato, apesar de apreciar um belo, cheiroso e gostoso prato. Não lavo minhas roupas aqui, vivo com mas duas moças que "disputam" o pequeno espaço da lavanderia, então, prefiro levar minhas roupas para lavar em Osasco. Cheguei há pouco no apê de Sto. Amaro e por isso, fico sem jeito de colocar coisas no espaço comum que temos. Por ora, o meu quarto acaba sendo o meu lar. Aqui tem o meu cheiro, um tapete macio, uma mesa, meu computador (me sinto quase uma Carrie Bradshaw, risos), meu colchão e meus travesseiros macios. Aqui sinto quase como se eu estivesse no meu lar, mas esbarro no pequeno espaço e sinto falta de uma sala, de circular pela casa, de ter alguém para bater papo. Fazer café só pra mim é chato, por isso, sempre faço um pouco mais para uma de minhas colegas de apê. Pena que ela coloca o café na garrafa e leva pra tomar no trabalho ao invés de sentar na mesa e tomar comigo :( Há um mês recebi a notícia de que uma das minhas duas companheiras de apê iria se mudar. Fiquei triste porque era a colega com quem mais conversava e, também fiquei preocupada com o valor do aluguel ... se não encontrássemos alguém logo, teríamos que dividir o valor por duas pessoas, ao invés de três. Espalhei a notícia no trabalho e uma garota muito legal se interessou. Ela mudará na próxima terça e trará com ela sofás, tapetes e plantas! Ah, ela também sabe e gosta de cozinhar e de comer. Acho que terei uma companheira de café da manhã e de papos antes de dormir. Tomara! Eu disse a ela que estou tão ou mais contente que ela, porque agora, talvez possamos transformar o apê de Sto. Amaro em lar! :)

domingo, 17 de fevereiro de 2013

Em busca da história, parte 1 - Renata

Chegou tarde em casa. A chuva deixou o percurso entre o trabalho e a residência intransitável. Só pôde sair da pizzaria, onde ficou com os amigos até as águas baixarem, depois das 20h30. Tirou os saltos assim que entrou no apê. As colegas de casa já estavam dormindo, então, não pôde secar os cabelos. A preocupação com o ruído do secador era bobagem, porque o apê fica em uma avenida movimentada de São Paulo, antônimo de silêncio. Estava cansada, com os pés doloridos e os pensamentos atropelados. O banho quente relaxou os músculos, mas não aquietou a mente. Os olhos estavam manchados de preto, o sabonete não tirou o rimel, nem o lápis; para isso ela teve que usar o demaquilante. No espelho do guarda-roupas só se enxerga do pescoço para baixo. Para ver o rosto ela precisava flexionar levemente os joelhos. Olhando-se no espelho percebeu que a textura da pele mudou, há mais pintas no rosto e uma terceira linha de expressão em cada um dos olhos. Trinta anos de existência, com mais quantos de vida? Mais cedo a amiga lhe perguntara: - Te importa com quantos anos você se tornará uma cineasta? - Não. O que me preocupa é morrer antes disso acontecer. - Quanto a isso, não há o que fazer, afinal, não tem como você negociar isso com a morte. Sim, é verdade. A única possibilidade é viver enquanto lhe é permitido. Portanto, decidiu que se tornaria uma cineasta! Na prática, o que essa decisão significava? Escrever pequenas histórias, fazer vídeos simples, transformar sentimentos em situações. - Quais sentimentos, Renata? - Não sei, ainda, há tantos ... - Pois, escolha um para começar! - Hum ... - Não pensa, escolhe o primeiro que lhe vier a cabeça! Ande, vamos! - Difícil! Estou angustiada, quero contar uma história, mas só o que consigo fazer é escrever sobre o meu ¨estado de espírito¨ e isso eu faço sempre. Poxa, quero fazer diferente! - Se é só o que você consegue fazer no momento, faça isso, já é alguma coisa! - Vou tentar. - Não tente, faça! - Vou escrever sobre voltar a postar no blog, depois do incentivo de duas amigas, a alegria e o riso frouxo ... Talvez amanhã, por hoje cansei.

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Em busca da história, prólogo - Renata

Mais um dia. Acordar, comer, trabalhar, malhar, comer e dormir. Mais um dia sem escrever. Rilke dizia ao jovem poeta que ele deveria escrever poemas se isso fosse uma necessidade vital. Talvez, pra ela isso não fosse indispensável, afinal, não escrevia. Ou, o não escrever poderia ser o que a inquietava. Queria escrever uma história singela, bonita, delicada. Trinta anos de existência guardam cenas dignas de filme. Então, porque não materializá-las em roteiro? Quem se interessaria? Isso importa? Não deveria. O que a impede de fazer isso? O eterno medo da rejeição, expor-se não é uma tarefa fácil. Entretanto, não fazê-lo está consumindo sua energia mental, deixando-a apática, chorosa. Por isso, se propôs a escrever, sem pretensão, para apaziguar o espírito. Será que vai rolar?

quinta-feira, 14 de julho de 2011

INIMIGA MORTAL - Kate

Morrerei de impaciência
Pode oferecer-me a taça envenenada
Pode enfiar-me a lança mortal
Morrerei de impaciência

Ela me espreita e me consome hoje
Ela me afoga agora em seu mar de ondas selvagens
Onde meus pés jamais alcançarão a praia.

Morrerei de impaciência
Com uma plateia impossível de agradar
A solidão a rir-se de mim
E o tempo a olhar-me com sua habitual ironia.

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Maternidade - Renata

Até a minha pré-adolescência eu dizia que aos 18 estaria casada e aos 21 seria mãe. Dos 15 anos até pouco tempo atrás eu pensava que o casamento e a maternidade não seriam para mim, mas hoje, particularmente neste 30 de junho de 2011, aos 29 anos de idade, entendi que quero ser mãe. Provavelmente não agora, até porque antes pretendo encontrar o marido.

Passei a tarde realizando exames clínicos ginecológicos de rotina e para minha sorte fui atendida por uma médica atenciosa e falante. Todo vez que consulto um médico ou realizo qualquer procedimento ligado à minha saúde, eu costumo mencionar o Linfoma de Hodking, que tive há 16 anos. Curiosamente, a Dra. também sobreviveu à doença e daí em diante ficamos batendo papo, enquanto ela apertava a minha pélvis cheia de água. No meio da conversa ela parou:

- Olha só ... que legal ... você está ovulando nos dois ovários. Você têm gêmeos na família? Essa é uma característica genética, significa que quando você engravidar poderá ser de gêmeos.

Eu fiquei tão feliz! Confesso que ainda estou. De uns tempos para cá tenho pensado muito em crianças. Observo elas na rua, me encanto com um sorriso ou um som meigo delas. Só não me habituo ao choro estridente. Mas, quem sabe ouvido de mãe é menos sensível a esse ruído?

Engravidar de dois pequenos seres ao mesmo tempo seria bom, já que penso em, um dia, ter três. Me pouparia uma gestação. Voltei no ônibus me sentindo plena, o vento batendo no meu rosto, o sol se pondo no horizonte ... lindo dia. Em algum momento dessa plenitude me dei conta de que estava curtindo algo que não existe, apesar de, em algum momento de minha existência, poder se tornar real; essa possibilidade já é o motivo de minha felicidade. Quando fiz a quimioterapia e a radioterapia, fui alertada de que, em consequência desses tratamentos, eu talvez não pudesse gerar filhos. Sou grata à vida por este prognóstico não ter se confirmado, afinal, eu nasci para ser mãe.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Cineasta ... será? - Renata

Há tempos não escrevo aqui, tampouco visito o site. Minha última postagem data de setembro de 2010. Tantas coisas aconteceram desde então. Eu de novo estou a procura de um projeto profissional, mais do que um trabalho. Desde a época da faculdade desejo trabalhar com cinema de ficção, contar histórias criadas pela minha imaginação, materializadas em imagens e sons exibidos na tela grande. Esse sonho parece cada vez mais distante, quase impossível de se concretizar. Cada vez que um projeto no qual estou envolvida termina, ressurge o desejo de procurar (e conseguir) uma vaga em produtoras como a O2, do Fernando Meirelles. Adoraria trabalhar como assistente desse cineasta, imagino que eu não seja a única! Tanta coisa para aprender com o cineasta e ele me parece um cara ético, humilde, gente boa. Quando trabalhei no SESC produzi a gravação de uma entrevista com um cineasta brasileiro famoso arrogante, que chegou atrasado, respondia as perguntas com má vontade e nos dispensou logo, alegando que tinha muito o que fazer. Com exceção da "louca" com quem trabalhei durante um mês (terrível), todas as demais equipes das quais fiz parte foram inesquecíveis, pois a relação sempre foi de companheirismo, amizade e respeito. Mais do que trabalhar com cinema de ficção, eu desejo seguir fazendo parte de equipes assim. Seria maravilhoso unir as duas coisas, mas eu não controlo isso.

Estou tão triste por não saber pra onde ir, o que fazer. Na área cinematográfica a indicação é o meio de fazer parte da turma e a minha (da qual faço parte desde que me formei) é a do documentário. Deixo claro que gosto muito de fazer documenários e que todas as experiências que tive com a produção deles me ajudou a me desenvolver como pessoa e como profissional. Mas, o desejo que me motivou a estudar cinema continua gritando e eu não sei mais o que fazer.

Eventualmente trabalhos com edição de vídeo ou afins vão surgir, afinal estou cadastrada em sites de trampos da área e acompanhando sites que divulgam vagas nessa área. O chato é que a galera do cinema não procura mão de obra nesses sites e sim no círculo de amigos.

Há um mês estou sem trampo e como ainda é recente, eu seleciono as vagas que se adequam mais ao meu perfil, mas confesso que temo o porvir ... sei que depois de dois ou três meses a minha peneira ficará mais larga e o meu critério de seleção mais abrangente.

Para manter a calma emocional eu penso: "venha o que vier, peço apenas que na equipe da qual eu farei parte reine o respeito, o companheirismo e a ética".

quarta-feira, 9 de março de 2011

Balada de Agosto e Azulejo - Kate


Eu bem poderia morrer
depois de duas canções de Zeca Baleiro
eu tranquilamente morreria
depois de duas canções dele
fecharia meus olhos e descansaria
ouvindo eternamente suas baladas
que me atingem como balas de canhão
arrombando meu peito
e meu cérebro

Eu bem poderia morrer
pois já me sinto tonto
embriagado pelo som
tomado de poesia
tomado de amor
e de melancolia


http://www.youtube.com/watch?v=4cQH-UWRcPE

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

No limite - Kate

Diga-me por favor
O que fazer quando estamos perdidos?
Por favor
As escolhas diante de nós
Os caminhos a percorrer

Não faço a menor ideia
Não tenho bússola
Não tenho planos
Só quero continuar em frente
Até saber onde este caminho vai dar

Diga você, por favor
É aqui?
É aqui o lugar?
Eu quero asas para voar
Saber se posso voar
A volta de você
Para saber se posso
Voar para sempre contigo…

terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Das incertezas - Kate



Quanto mais vivo, menos sei…
É esta a certeza que se cristaliza à medida que passam meus dias aqui neste planeta.
Se a Terra é redonda,
Se nos movemos devagar a volta do Sol,
Estas são somente formas racionais de vermos o mundo.

Mas acumulam-se as incertezas junto às horas que me são acrescentadas.
Se eu sou boa,
Se há outras dimensões fora daqui,
Estes são apenas ínfimos pedaços das dúvidas que carrego em minha lista.

As únicas certezas que se afirmam a cada dia para mim:
O dia é hoje, o momento é agora, o movimento é já.

sábado, 4 de dezembro de 2010

O Amor tem de ser livre - Kate

Ninguém precisa trazer o amor em rédeas
Não é necessário mostrar-lhe a direção
Nem apontar o caminho

O amor não precisa de justificativas
Para se lembrar de como deve ser

Por isto, pararei de procurar o amor
Ele virá me encontrar onde eu estiver
Não farei esforço
Não me esgueirarei pelas ruas ou vielas
Gritando seu nome,
Ele virá ao meu encontro

Tão fresco e tão puro
Quanto deve ser

Tão suave e quente
Quanto se espera

A partir de hoje,
Não farei esforços, amor
Esperarei até que você mesmo grite o meu nome.


porque preciso ser achada)

segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Medos que Crescem Conosco (Comigo) - Kate





Quando eu era criança, as viagens mais longas de que me recordo (as únicas que fiz nessa época) eram as que fazíamos todos os anos para a cidade dos meus avós no interior do estado (coisa de 200km no máximo). A medida que nos afastávamos da paisagem conhecida e eu ia acompanhando as luzes das novas cidades por onde passávamos, uma angústia ia se assomando dentro de mim. Só diminuía quando chegávamos na casa dos meus avós e só passava em definitivo quando voltávamos para casa. Quando eu via o mato crescido no quintal, quando o cheiro de poeira entrava em meu nariz, só então meu coração se aliviava por estar no meu lugar, em minha casa.
As viagens noturnas eram meus maiores suplícios. Eu olhava aquelas luzes todas das cidades do caminho, as pessoas desconhecidas sentadas nas calçadas, caminhando pela rua, cruzando com nosso carro, assustada em contemplar o desconhecido.
Hoje, trinta anos depois, os mesmos sentimentos me tomam, quando caminho por um país desconhecido e um terror quer tomar conta de mim quando percebo que é necessário cruzar o oceano para sentir novamente o cheiro da minha cidade.

sábado, 11 de setembro de 2010

Reinventar-se - Renata

FÉ
Desistiu de esperar pelo o que nunca veio.

Escrevi esse microconto na oficina "soltando a língua", ministrada pelo Marcelino Freire. Inspirei-me no mito que circula sobre a morte do pensador Walter Benjamin, que teria se suicidado, temendo ser capturado pela Gestapo; ele teria fugido para os Pirineus, onde seria resgatado por compatriotas judeus, mas, desistiu de esperar, se matou e o resgate chegou logo em seguida. Ouvi essa história na faculdade e ficou para mim como um amuleto em momentos, como agora, em que minha fé está debilitada.

A vida não tem sentido, mas, como ser humano, eu preciso criar um sentido para a minha vida, senão, ela não vale o esforço que eu faço para vivê-la. Hoje tive a minha primeira aula na pós e lá ouvi do professor, que citou a Santaella, que as melhores coisas da vida não servem para nada, mas, fruí-las é um prazer, que, por si só, serve para nos mover adiante. Percebi o quanto gosto de estudar, de aprender e de compartilhar o que penso e sinto com as pessoas. Apenas preciso aprender a compartilhar com aquelas que tem interesse no que se passa em minha cabeça e em meu coração.

O trabalho costumava ser uma experiência enriquecedora, capaz de recarregar minha fé nessa minha existência. Há algum tempo deixou de ser assim. Não sei se são meus colegas ou o trabalho que deixou de me inspirar e de me dar prazer em fruí-lo. Não sei. Reconheço que é hora de me reinventar como profissional, como mulher e como pessoa. Como será isso eu não faço ideia. Ainda. Mas, terei mais paciência que Benjamin e esperarei pelo resgate.

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

SOBRE PÁSSAROS - Kate



OS QUE ESTÃO VOANDO E PRINCIPALMENTE OS QUE ESTÃO PRESOS NO CHÃO


Nos meus banhos de sol, quase diários, caço pássaros.

Não tenho armas, sequer um apito, mas fixo meus olhos no céu, mesmo em dias de sol forte e apuro as vistas até que consiga enxergar um.

Estes são os melhores momentos do meu dia e quando não vejo nenhum, fecho os olhos, sinto o vento soprar suave na minha pele e lembro de cada pássaro que vi até aquele dia. Lembro detalhes como voos em espirais, asas retesadas, assobios estridentes. Qualquer lembrança é suficiente para me fazer sorrir, aqui embaixo.

Quando vejo algum diferenciado, pego lápis e papel e arrisco um desenho. Tudo para que nenhum detalhe se perca. Tudo para que, em dias nublados, como os de agora, eu não esqueça que voar é meu objetivo de vida…


(porque nunca devemos esquecer quem somos, de onde viemos e onde queremos chegar)

domingo, 5 de setembro de 2010

Depois da tormenta - Renata

Quinta-feira, 02 de setembro de 2010, começou a minha terapia. Haviam me dito que as vagas abririam apenas em 2011 e eu já estava procurando outra alternativa quando recebi o telefonema agendando a primeira consulta, para o dia seguinte.

Cheguei mais cedo e aproveitei para passar no Núcleo de Pesquisa onde participei de uma prova de seleção para um curso de especialização na minha área. Há quase duas semanas eu estava aguardando o resultado do processo seletivo e por isso resolvi descobrir o porquê da demora. Tive uma surpresa agradabilíssima, pois minha dissertação recebeu a nota máxima e por mérito terei isenção na mensalidade do curso, que terá duração de 1 ano e meio. Meu e-mail havia sido digitado errado, por essa razão, o resultado nunca chegou para mim. De certa maneira, foi mais gostoso receber a grande novidade pessoalmente.

Naquele dia chorei um pouquinho na terapia, mas saí de lá radiante, feliz da vida, porque agora tenho uma motivação, voltar a estudar, a aprender coisas novas, conhecer pessoas diferentes. Fui caminhando até o ponto do ônibus distribuindo sorrisos e estou assim até hoje.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Renascer - Renata

Tenho uma vida boa, cheia de saúde, amigos atenciosos e familiares amorosos. Trabalho na profissão que escolhi e com ela tenho conseguido pagar as minhas contas. Por que eu me sinto tão infeliz a ponto de chorar todos os dias, em qualquer lugar e na frente de qualquer pessoa? De onde vem tanta tristeza?

No dia em que me despedi de Kate, peguei um trem na Estação de Osasco, sentido Estação Morumbi, às 17h30. O vagão saiu cheio e não parou de entrar gente, de modo que tive de saltar uma estação antes, na Berrini, as custas de um pequeno "surto". Gritei, com a voz embargada, para que segurassem a porta pra que eu pudesse descer, senão eu iria morrer. Só me dei conta das palavras que havia proferido quando caminhava pela Berrini com os olhos cheios de lágrimas, tentando dar um sentido para aquilo tudo... O trem no qual eu estava já era o segundo ou o terceiro que passava lotado naquela estação, o que explicava o fato de as pessoas terem forçado a entrada no vagão, mesmo sem ter espaço. Os paulistanos vivem essa rotina diariamente e, mesmo insatisfeitos com ela, parecem se adaptar, como se não houvesse outra alternativa. Será que não há?

Depois de caminhar mais de meia hora, encontrei minha prima querida e seu abraço e carinho foram tão acalentadores e revigorantes, que a minha existência, naquele momento particular, pareceu adquirir sentido outra vez.

Na sexta-feira passada, de novo, estava eu chorando no ônibus de volta para a casa, às 18h. O tráfego era intenso assim como as lágrimas que não paravam de escorrer. Quando eu choro em público, na maioria das vezes, consigo conter os espasmos musculares do rosto e só. Choro quietinha para não importunar ninguém e sempre carrego meus lenços Kiss. Curiosamente, as pessoas sentem-se incomodadas quando percebem o outro nessa situação e com o senhor que estava sentado ao meu lado não foi diferente. Na primeira oportunidade, ele engatou uma conversa comigo: falamos sobre o trânsito, ele imendou com assuntos de trabalho, contou sobre sua esposa e filhos e, quando nos demos conta, chegou a hora de ele descer. Conversar com aquele senhor fez com que, por aqueles momentos, a minha tristeza ficasse suspensa e as minhas lágrimas parassem de cair. Eu estava esgotada emocionalmente e esse papo permitiu que eu descansasse de mim mesma.

Quando chegou a minha vez de descer, segui para o SESI e fiquei assistindo a aula de Power Jump na qual eu estaria se não tivesse pegado trânsito. A música alta e a energia da aula continuaram mantendo minha tristeza em suspenso. Voltando pra casa, ouvi o recado de um colega de trabalho dizendo que tínhamos feito uma boa reunião e que tinha ficado feliz por eu ter tocado (e bem) boa parte dela. Não sei se pela confluência de tudo isso, mas, tive um fim de semana bom, agradável. No sábado estive na companhia dos meus amigos da arqueologia, com os quais trabalho atualmente; percebi o quanto me sinto a vontade e feliz ao lado deles, mesmo não compreendendo muito das piadas e dos assuntos sobre os quais eles conversam. Pensei como a vida pode ser boa. Domingo comemos uma comida saborosa aqui em casa com os tios de Sorocaba, que são sempre muito carinhosos.

Acho que, como a maioria dos seres humanos, tenho o instinto de sobrevivência e, talvez por isso, eu esteja sempre buscando maneiras de sair do pântano no qual me encontro. Suicídio não é uma opção para mim, por isso, fui procurar a terapia, que deverei começar em breve. Terei muito assunto para escrever.

Acho que está na hora de eu renascer, de novo!

segunda-feira, 14 de junho de 2010

De segredos e de olhares - Kate




Guardo segredos da alma

Guardo segredos na alma

Quem os descobre?

Quem me vê?


Guardo segredos por trás dos olhos

Guardo segredos em minha boca fechada

Guardo um coração aberto

Quem o descobrirá?


Minha vida,

Segredos

Abertos

Coração

Aberto

Olhos

Fechados

Peito

Nu

(porque o segredo está em não guardar segredos, porque há Um que a tudo vê...)





domingo, 23 de maio de 2010

"Garoto Interrompido" - Renata

Hoje acordei amuada. Tentei dar seguimento aos meus estudos, mesmo sendo domingo, até para espairecer e deixar o tempo passar. O máximo que consegui foi terminar um capítulo que comecei a ler na sexta-feira e que já estava perto do fim. Minha mãe também acordou se sentindo assim, então passamos a manhã conversando sobre como nos sentíamos simplesmente insatisfeitas hoje e, juntas, buscamos explicações racionais para esse sentimento.

O clima intensifica a melancolia, é claro: além de frio, o céu está cinza e cai uma garoa fina. Na minha opinião, o Sol contribui muito mais para o bom humor do que um céu nublado.

Juntas, minha mãe e eu conseguimos enumerar alguns pequenos acontecimentos que, em conjunto, poderiam ter desencadeado essa insatisfação em cada uma de nós. Todos eles insignificantes, é claro. Nenhum deles apresentava qualquer fator irreversível ou nos afetava de maneira mais grave, ou seja, em nada alteravam nossas vidas; além do mais, sobre nenhum deles tínhamos controle. O Sol, por exemplo, por volta das 13h apareceu esplendoroso e encheu nossa sala com uma luz aconchegante, que em nada se parecia com a manhã cinza que havíamos presenciado - agora, 15:46, entretanto, o cinza voltou a reinar absoluto.

Minha mãe e eu, cada uma a sua maneira, nos engajamos em atividades prazeirosas: ela foi pintar e decorar camisetas e eu fui ler um romance. Depois do almoço, liguei a tv e estava começando um documentário norte-americano chamado "Boy Interrupted", dirigido por um casal de cineastas, cujo filho adolescente cometeu suicídio aos 15 anos de idade. O filme era, ao mesmo tempo, uma tentativa de lidar com a perda e de tentar, no meio desse processo, entender o que deu errado.

O casal construiu o documentário a partir de vídeos familiares gravados desde o nascimento do garoto Evan até pouco antes de sua morte. Desde a tenra infância o garoto apresentava sinais de depressão e aos sete anos de idade foi diagnosticado como Bipolar II, estágio onde a depressão se manifesta. Essa descoberta veio depois que o garoto subiu no telhado do prédio escolar de seis andares e ficou na beirada dele simplesmente mirando o chão. Antes disso, Evan já falava em suicídio, fazendo com que a "arte" de subir no telhado ganhasse proporções mais sérias.

Evan foi internado em duas clínicas, tomou medicação para equilibrar quimicamente as substâncias responsáveis por sua depressão e recebeu toda a atenção que a família podia dar. Na adolescência, foi matriculado em um colégio comum, após sair da clínica de reabilitação, fez amigos e era um estudante exemplar. Todo esse movimento não impediu, entretanto, que ele cometesse o suicídio, atirando-se pela janela do apartamento onde morava com os pais e o irmão mais novo. O garoto deixou uma carta extremamente racional, elencando seis motivos para morrer e seis para viver; apesar de empatados, o rapaz estava certo de que o caminho a seguir era, senão, a morte.

Ao longo do documentário e depois dele ficou a compreensão emocional de uma constatação que ouvi inúmeras vezes nas discussões universitárias sobre como essa insatisfação inerente ao ser humano é uma das molas propulsoras do consumo, senão a mais importante delas.

Minha mãe, eu, você, o Evan, todos temos uma insatisfação inerente que simplesmente é, sem outra razão de ser, senão simplesmente existir. Alguns de nós buscam conforto no consumo de filmes felizes, outros no consumo de roupas da moda (que nem sempre caem bem); outros ainda buscam algum conforto na religiosidade, nos estudos ou no trabalho. Acrescento também os que buscam conforto no sexo, na bebida e na comida.

Buscamos todos os dias algum conforto, algo que nos tire a atenção dessa insatisfação chata, que é como um beliscão leve, mas que dói e irrita porque é constante.

Muitos de nós consegue seguir adiante com a retroalimentação do conforto. Outros, como Evan, simplesmente não suportam a dor e vêem na morte a única maneira de escapar dela.

Atualmente minha fuga, ops, conforto tem sido a leitura de livros para me preparar para uma especialização que tenho interesse em fazer. Além do mais, adoro pensar no futuro como um período de possibilidades e cheio de confortos, alguns desses eu ainda nem conheço. É isso que me mantém sempre em frente!

terça-feira, 6 de abril de 2010

Passa tempo - Renata

Li certa vez que o melhor a fazer enquanto se espera (por qualquer coisa) é encontrar ocupações. Pois eu tenho procurado várias: tarefas domésticas diárias, leituras de livros, assistir filmes em DVD, sair para tomar um café com amigos no meio de uma tarde de semana, dormir ... Entretanto, pensar é o que tem de fato me ocupado. Pensar no futuro, na minha profissão, no que estou fazendo (ou não) da minha vida.

Um pouco antes de o projeto no qual eu estava trabalhando acabar, fui com familiares jantar em um restaurante japonês. Coincidência ou não, a mensagem do biscoito da sorte dizia:

"Você passará por um teste difícil
que o tornará mais feliz."

Não tenho dúvida de que sobreviver aos meus próprios pensamentos é esse teste. Para mim não há nada mais atemorizante do que eles.

Tenho lido (quando consigo me concentrar) "O Livro Tibetano dos Mortos", uma leitura budista praticada para ajudar o morto a encontrar seu caminho no Bardo, aquele entre a morte e o renascimento. O que me atraiu nessa leitura foi que para os budistas, aprender a morrer é aprender a viver. Até onde eu li, a consciência ao deixar o corpo físico se depara com três estágios nos quais tem a possibilidade de transcender ao nirvana. Em contrapartida, essa mesma consciência sofre a influência ilusória dos desejos e pensamentos da existência prévia e esses, ao mesmo tempo em que maravilham, atemorizam, confundem e afastam a consciência da divina luz. A consciência, incapaz de atingir o nirvana, reencarna.

Nem preciso dizer que ainda viva e longe de atingir o nirvana, encontro-me na mesma situação.

Alguns filósofos dizem que o segredo para uma boa vida é privá-la de desejo. Outros retrucam que privando-a de desejo, privam-na também de vida. Os desejos ao mesmo tempo que nos impulsionam, podem transformar a vida num fardo.

Os meus parecem tão distantes e, às vezes, nem parecem meus. Desejo viver um grande amor, desejo trabalhar num ambiente agradável, fazendo o que gosto e ganhando dinheiro. Desejo conviver bem com meus ambíguos sentimentos e, desejo mais do que tudo, sossego mental!

Dizem que conseguir tudo ao mesmo tempo é praticamente impossível, mas cultivo a esperança de um dia conquistar o impossível. Estive bem próxima do que considero o sossego mental, quando estive em Natal no réveillon de 2009/2010. Claro que o ambiente, as companhias e o fato de eu estar de férias recebendo salário contribuíram para essa conquista. Ajuda saber que já experienciei a sensação que busco, pois isso a torna real, possível.

Por outro lado, o dia a dia transforma essa minha busca numa maratona exaustiva e confusa, regada a opiniões diversas sobre quem sou e o que devo fazer da minha vida.

Há um filósofo moderno que diz que o melhor dia é aquele no qual não pensamos em nós mesmos. Concordo plenamente. Estou exausta de mirar meu próprio umbigo e na tentativa de mudar de foco, resolvi me expor um tanto mais neste blog para ver se, dessa maneira, sacio meu ego e ele pára de me importunar. Pelo menos por ora.

Observação: assim que publiquei o texto acima, recebi uma mensagem de celular de um amigo que está cursando filosofia. Achei que a frase faz relação com este.

"A vida nada mais é que a produção de um cadáver." (Walter Benjamin)

domingo, 28 de março de 2010

E agora? - Renata

Amanhã será um dia importante para mim, pois poderá definir os próximos passos em direção ao meu futuro profissional. Estou ansiosa e dormi mal a noite passada. Resolvi escrever para liberar um pouco dessa aflição que me agonia!

Enquanto me questiono sobre o que poderia ser o tema da avaliação e dentro do que imagino que seja, me preparo para ele, não consigo deixar de pensar que somos muitos e todos batalhando por uma única vaga. Esse fato é o que mais me angustia, seguido pelo questionamento sobre o que farei se essa oportunidade específica não se concretizar.

Nessa hora eu gostaria de ouvir de uma pessoa com habilidade de antever o futuro que a vaga será minha ou que, se não for o caso, outra oportunidade tão boa quanto essa de amanhã surgirá muito em breve. No atual momento, a única pessoa que tem dito isso para mim tem sido eu mesma e eu, (in)felizmente não tenho tal dom.

O jeito é continuar seguindo às escuras, dando o melhor de mim e esperando para ver se este foi suficiente por agora.

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010

Mais um dia - Renata

Hoje acordei de mal humor. Dormi pouco, tenho trabalhado 12 horas por dia, ainda não consegui uma brecha pra ir cortar os cabelos. Há pouco, como em todos os dias, vim num ônibus lotado, no qual entrei e fiquei na mesma posição por dez minutos, aguardando que alguns dos muitos passageiros descessem para que eu pudesse me posicionar de maneira menos incômoda.

Enquanto o ônibus chacoalhava, eu pensava: "que merda que é isso!"

Há dias que são mais difíceis que outros. Os questionamentos vão longe e o propósito da existência parece ainda mais vazio. Mas, como o trabalho e a vida seguem, não há muito o que fazer senão seguir também. E eu continuo seguindo, por mais um dia.