Li certa vez que o melhor a fazer enquanto se espera (por qualquer coisa) é encontrar ocupações. Pois eu tenho procurado várias: tarefas domésticas diárias, leituras de livros, assistir filmes em DVD, sair para tomar um café com amigos no meio de uma tarde de semana, dormir ... Entretanto, pensar é o que tem de fato me ocupado. Pensar no futuro, na minha profissão, no que estou fazendo (ou não) da minha vida.
Um pouco antes de o projeto no qual eu estava trabalhando acabar, fui com familiares jantar em um restaurante japonês. Coincidência ou não, a mensagem do biscoito da sorte dizia:
"Você passará por um teste difícil
que o tornará mais feliz."
Não tenho dúvida de que sobreviver aos meus próprios pensamentos é esse teste. Para mim não há nada mais atemorizante do que eles.
Tenho lido (quando consigo me concentrar) "O Livro Tibetano dos Mortos", uma leitura budista praticada para ajudar o morto a encontrar seu caminho no Bardo, aquele entre a morte e o renascimento. O que me atraiu nessa leitura foi que para os budistas, aprender a morrer é aprender a viver. Até onde eu li, a consciência ao deixar o corpo físico se depara com três estágios nos quais tem a possibilidade de transcender ao nirvana. Em contrapartida, essa mesma consciência sofre a influência ilusória dos desejos e pensamentos da existência prévia e esses, ao mesmo tempo em que maravilham, atemorizam, confundem e afastam a consciência da divina luz. A consciência, incapaz de atingir o nirvana, reencarna.
Nem preciso dizer que ainda viva e longe de atingir o nirvana, encontro-me na mesma situação.
Alguns filósofos dizem que o segredo para uma boa vida é privá-la de desejo. Outros retrucam que privando-a de desejo, privam-na também de vida. Os desejos ao mesmo tempo que nos impulsionam, podem transformar a vida num fardo.
Os meus parecem tão distantes e, às vezes, nem parecem meus. Desejo viver um grande amor, desejo trabalhar num ambiente agradável, fazendo o que gosto e ganhando dinheiro. Desejo conviver bem com meus ambíguos sentimentos e, desejo mais do que tudo, sossego mental!
Dizem que conseguir tudo ao mesmo tempo é praticamente impossível, mas cultivo a esperança de um dia conquistar o impossível. Estive bem próxima do que considero o sossego mental, quando estive em Natal no réveillon de 2009/2010. Claro que o ambiente, as companhias e o fato de eu estar de férias recebendo salário contribuíram para essa conquista. Ajuda saber que já experienciei a sensação que busco, pois isso a torna real, possível.
Por outro lado, o dia a dia transforma essa minha busca numa maratona exaustiva e confusa, regada a opiniões diversas sobre quem sou e o que devo fazer da minha vida.
Há um filósofo moderno que diz que o melhor dia é aquele no qual não pensamos em nós mesmos. Concordo plenamente. Estou exausta de mirar meu próprio umbigo e na tentativa de mudar de foco, resolvi me expor um tanto mais neste blog para ver se, dessa maneira, sacio meu ego e ele pára de me importunar. Pelo menos por ora.
Observação: assim que publiquei o texto acima, recebi uma mensagem de celular de um amigo que está cursando filosofia. Achei que a frase faz relação com este.
"A vida nada mais é que a produção de um cadáver." (Walter Benjamin)
terça-feira, 6 de abril de 2010
domingo, 28 de março de 2010
E agora? - Renata
Amanhã será um dia importante para mim, pois poderá definir os próximos passos em direção ao meu futuro profissional. Estou ansiosa e dormi mal a noite passada. Resolvi escrever para liberar um pouco dessa aflição que me agonia!
Enquanto me questiono sobre o que poderia ser o tema da avaliação e dentro do que imagino que seja, me preparo para ele, não consigo deixar de pensar que somos muitos e todos batalhando por uma única vaga. Esse fato é o que mais me angustia, seguido pelo questionamento sobre o que farei se essa oportunidade específica não se concretizar.
Nessa hora eu gostaria de ouvir de uma pessoa com habilidade de antever o futuro que a vaga será minha ou que, se não for o caso, outra oportunidade tão boa quanto essa de amanhã surgirá muito em breve. No atual momento, a única pessoa que tem dito isso para mim tem sido eu mesma e eu, (in)felizmente não tenho tal dom.
O jeito é continuar seguindo às escuras, dando o melhor de mim e esperando para ver se este foi suficiente por agora.
Enquanto me questiono sobre o que poderia ser o tema da avaliação e dentro do que imagino que seja, me preparo para ele, não consigo deixar de pensar que somos muitos e todos batalhando por uma única vaga. Esse fato é o que mais me angustia, seguido pelo questionamento sobre o que farei se essa oportunidade específica não se concretizar.
Nessa hora eu gostaria de ouvir de uma pessoa com habilidade de antever o futuro que a vaga será minha ou que, se não for o caso, outra oportunidade tão boa quanto essa de amanhã surgirá muito em breve. No atual momento, a única pessoa que tem dito isso para mim tem sido eu mesma e eu, (in)felizmente não tenho tal dom.
O jeito é continuar seguindo às escuras, dando o melhor de mim e esperando para ver se este foi suficiente por agora.
sexta-feira, 5 de fevereiro de 2010
Mais um dia - Renata
Hoje acordei de mal humor. Dormi pouco, tenho trabalhado 12 horas por dia, ainda não consegui uma brecha pra ir cortar os cabelos. Há pouco, como em todos os dias, vim num ônibus lotado, no qual entrei e fiquei na mesma posição por dez minutos, aguardando que alguns dos muitos passageiros descessem para que eu pudesse me posicionar de maneira menos incômoda.
Enquanto o ônibus chacoalhava, eu pensava: "que merda que é isso!"
Há dias que são mais difíceis que outros. Os questionamentos vão longe e o propósito da existência parece ainda mais vazio. Mas, como o trabalho e a vida seguem, não há muito o que fazer senão seguir também. E eu continuo seguindo, por mais um dia.
Enquanto o ônibus chacoalhava, eu pensava: "que merda que é isso!"
Há dias que são mais difíceis que outros. Os questionamentos vão longe e o propósito da existência parece ainda mais vazio. Mas, como o trabalho e a vida seguem, não há muito o que fazer senão seguir também. E eu continuo seguindo, por mais um dia.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
Mais sobre imagens (na realidade só uma, do mar...) – Kate

Sou privilegiada. Tenho diariamente mais de 10 quilômetros de mar para admirar na ida para o trabalho. Em dias alegres, abro um sorriso quando miro aquele enorme aquário gigante, simplesmente embevecida com aquela paisagem, ora incrivelmente verde, ora cheia de tonalidades azuis e em dias de céu nublado, cinzento e não menos belo. Nas manhãs melancólicas, abro um sorriso quando descubro aquela capa compacta balançando-se ao sabor do vento, formando marolas e ondas mais fortes. Devagar, ponho meu queixo no lugar devido e aperto um pouco mais os olhos para expandir a linha do horizonte. Minha miopia a deixa trêmula e ainda assim bastante encantadora.
O que mais me fascina no mar é a onda. Aquela espuma forte que vem com força quebrar na areia, lambendo as pedras, fazendo a festa dos surfistas. Uma onda quebrando é inspiração para dias difíceis, em que será necessário usar a força para afastar as pedras, associada à beleza nos gestos para manter a dignidade. Uma onda no mar traz a inspiração necessária para o equilíbrio no enfrentamento deste mar chamado rotina.
Uma onda dura o tempo necessário para se tornar majestosa, inesquecível... Vem se avolumando devagar junto a outros tantos litros de água salgada e de repente cresce, fica maior que todo o mar logo abaixo, causa vários sentimentos, medo ou alegria, admiração ou terror, depois se dobra com a força de si mesma e começa a desconstruir-se, de forma não menos bela, através da espuma branca, quando então volta completamente para o mar, incorpora-se a ele, tornando-se discreta, tornando-se apenas mar, para ajudar a formar, talvez, novas ondas.
Ondas são inspiradoras, num mar quase infinito, elas se destacam, atraindo a atenção para si.
Na volta para casa, não as vejo, engolidas pela potente escuridão da noite. A despeito disto, elas continuam a dar seu espetáculo. Não preciso ver, basta ouvir para sabê-las ali, firmes, breves e belas.
Geralmente chego ao meu destino com uma agradável sensação de pequenez, de brevidade, seja da tristeza, seja da melancolia e com novas sensações, de liberdade, de imensidão, de renovação da beleza, de majestade.
Uma boa onda é capaz de transformar meus sentimentos, diminui a dor e potencializa a felicidade... e elas nunca me deixam esquecer que nossa vida, a de cada um de nós, dura o tempo de uma onda...
segunda-feira, 25 de janeiro de 2010
Ainda sobre o Silêncio - Kate

Ouvi, em dias recentes, que o silêncio é um dentre alguns poucos itens considerados valiosos neste século, junto ao tempo e ao espaço.
Ter silêncio virou objeto de desejo.
O homem aprendeu a falar há muitos anos, mas esqueceu-se do silêncio, desde então, foi pouco a pouco abandonando o silêncio num canto escuro, como se a evolução não combinasse com ele. Como se silêncio e crescimento não casassem. Deve ter havido tempo em que devia ser vergonhoso e pouco digno tanto silêncio.
Agora? Agora não!
Agora este é buscado e ansiado. Logo mais alguém inventará alguma forma de comercializá-lo, uma vez que em dias atuais tudo definitivamente é pensado em função do capital. Logo, teremos de comprar silêncio e haverá os que ganharão benefícios do estado com fartos nacos de silêncio grátis.
- Vai um silêncio aí? – vão nos gritar pelas janelas, nas ruas, no mundo virtual.
- Puxa! Meu marido vai me matar quando vir a fatura do cartão de crédito. Gastei até o limite com silêncio! – as esposas medrosas, mas consumistas vão se lamentar.
- Você viu no noticiário? Eles estavam contrabandeando silêncio e lucrando com isso! Onde é que vamos parar desse jeito? Será que não têm pena nem das crianças? Se continuar assim, elas jamais saberão como é o silêncio!– se revoltarão alguns.
Pensando assim, vivo intensamente cada silêncio que consigo. Assusta-me às vezes em que não consigo curtir o silêncio que me chega naturalmente, como se meus sentidos não soubessem mais do que se trata. Meus neurônios fazem suas sinapses e demoram cada vez mais tempo para clarear a informação: isso é silêncio! Ah!
Na realidade, o silêncio parece inversamente proporcional à presença humana: quanto mais gente, menor o silêncio.
Há que se esclarecer que a ausência de silêncio não significa uma interação profunda e empática entre as pessoas, muito pelo contrário. A falta dele é quebrada com sons que mais afastam que aproximam: carros, buzinas, músicas (algumas boas, a maioria ruins), gritos, xingamentos e palavras superficiais.
Palavras são boas para conectar pessoas, mas diálogos superficiais não nos levam a lugar algum. Parecem servir, na maioria das vezes, para multiplicar a distância, despistar desavisados ou freqüentemente não cairmos no desconfortável silêncio.
Silêncio, substantivo cheio de adjetivos contraditórios: desconfortável, desejado, difícil, calmante, irritante, poderoso.
Quando soubermos nos achegar uns aos outros em silêncio, nos encontrar em silêncio, nos sentirmos bem uns com os outros em silêncio, quando soubermos aguardar respostas em silêncio, quando o silêncio fizer parte de nossa humanidade, teremos enfim crescido.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
Felicidade - Renata
iDicionário Aulete: sf.1. Qualidade, condição ou estado de feliz; grande satisfação ou contentamento. 2. Boa sorte. Bom êxito em algo que se fez; SUCESSO.
Difícil a conquista dessa tal FELICIDADE. Para que ela se realize é preciso que haja a confluência de vários fatores, que nem sempre são de fácil alcance. Estar bem consigo mesmo, estar bem no amor, estar bem com a família e os amigos, estar satisfeito e motivado no trabalho. Estar bem consigo mesmo é algo que depende, prioritariamente, de si mesmo. Todo o resto, entretanto, depende também de outras pessoas.
Admiro muito aqueles que batalham pela felicidade.
Um grande amigo, alguns anos mais experiente que eu, é um exemplo no qual eu me espelho. Casou-se e teve dois filhos quando ainda era muito jovem, em torno dos 17 anos. Quando os filhos ainda eram pequenos, percebeu-se infeliz no casamento e decidiu se separar. Na época, seu irmão aconselhou-o a não fazê-lo porque isso ocasionaria um desgaste emocional e financeiro. Ao invés de se divorciar, ele poderia manter casos extra-conjugais, sugeriu o irmão.
Meu amigo seguiu firme em sua decisão e se separou da mulher. Não foi fácil, foi mesmo desgastante, mas ele seguiu em busca do que o faria feliz. Talvez, ele nem soubesse exatamente o que lhe faria feliz, mas seguiu em busca da felicidade mesmo assim. Envolveu-se com outra mulher, tempos depois, com a qual se casou. Não sei ao certo quanto tempo ficaram juntos, mas o relacionamento tampouco durou para sempre.
Nesse meio tempo, ele também seguiu batalhando por um lugar de destaque em sua profissão, a princípio para proporcionar a seus filhos as oportunidades que não teve.
Hoje em dia, com os filhos já inseridos no mercado de trabalho e criados para a vida, esse meu amigo parece ter finalmente encontrado a felicidade. Parece-me que ao menos sente-se feliz a maior perto do tempo, o que eu considero uma vitória. Casou-se pela terceira vez com uma mulher com a qual compartilha uma percepção de mundo muito similar a sua própria.
Conversamos muito sobre essa busca pela felicidade, esse meu amigo e eu. Ele me disse que finalmente compreendeu que não se pode ter tudo o que se deseja na vida, mas pode-se aprender a ser grato a ela por aproximar-se muito desse tudo. E por esse quase tudo ele é muito grato à vida.
Outro caso que tenho como referência é o da minha tia querida. Para mim, ela é um exemplo de pessoa que se reinventou como mulher e como profissional. Ela também casou-se cedo com o então amor de sua vida. Ela tocou em paralelo o casamento, o trabalho e a faculdade. Lembro-me de chegar no sábado em sua casa e ela estar estudando e fazendo trabalhos da faculdade. Quando se formou, o casamento entrou em crise. Embora apaixonada pelo marido, minha tia sempre gostou de viajar, de conhecer pessoas, sempre foi muito falante, mas, por alguma razão, casou-se com um homem, cujo divertimento era assistir televisão.
Eles tentaram ter um filho, mas ela teve um aborto natural. Paralelamente, ela decolava no trabalho. Frustrada e infeliz, ela resolveu se divorciar. Foi uma loucura. O marido disse ok, mas, como era ela quem queria "desistir" do casamento, não teria direito a nada do patrimônio conjunto de ambos. Minha avó, muito católica e, na época, muito mais inflexível, mostrou-se contrária a decisão e, no momento em que minha tia mais precisava do carinho de sua mãe, nela encontrou apenas críticas.
Foi nessa época que ela e minha mãe aproximaram-se e se tornaram muito amigas. Minha mãe, que também se separava de meu pai, ofereceu o carinho, a compreensão e o ombro amigo que a tia tanto precisava.
Titia abriu mão do que lhe era de direito e reconstruiu sozinha sua nova vida: alugou um apartamento, comprou o que era necessário para viver nesse novo lar e começou a viajar muito. Viveu experiências que nunca poderia imaginar e seguiu em busca da própria felicidade. Depois de 18 anos trabalhando na mesma empresa, ela resolveu sair em busca de novos desafios profissionais. Foi estudar inglês em Chicago, nos EUA, antes do episódio de 11 de setembro. Preparou seu currículo e foi até um hotel no centro da cidade a fim de conseguir um emprego como arrumadeira. Lá, a pessoa que a entrevistava não conseguia entender como uma profissional com a formação e experiência dela desejava trabalhar como arrumadeira. Simples: ela precisava trabalhar. Coincidência ou não, aquele hotel precisava de uma contadora e a pessoa que entrevistava a minha tia achou que ela poderia muito bem preencher essa vaga.
Ela agarrou essa oportunidade, virou-se com o então inglês derrapante e exerceu com excelência a sua função no departamento de contas daquele hotel. Faz 10 anos que ela está nesse mesmo hotel. Chegou ao cargo mais alto na hierarquia do departamento de contas; foi lá também que conheceu o atual marido. Hoje, ela também encontra-se mais próxima de sua felicidade, embora tenha enfrentado inúmeros momentos de tristeza, solidão e sofrimento. Valeu a pena e ainda vale a pena lutar para ser feliz.
A busca por ela geralmente é acompanhada de sofrimento, perdas e solidão, mas, VALE A PENA!
De um ano pra cá, meu objetivo de vida tem sido a busca pela minha felicidade e para conseguí-la estou gastando muita energia mental e física para descobrir o que me faz feliz e para transformar o que me deixa triste. Sempre que desamino nessa minha busca, lembro-me de meus dois exemplos.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Silêncios e Imagens - Kate

Se me pedissem para resumir nosso reencontro em duas palavras eu diria: silêncios e imagens. Fui pega-la no aeroporto lotado ansiosa por nos revermos. Somente para variar um pouco o vôo atrasou e a gente já pensa mil bobagens, devido às tantas tragédias que vemos diariamente.
Mas ela chegou tranqüila, bonita, leve e intacta. E bem ansiosa para rever o mar. E foi o mar a primeira imagem que tivemos juntas e a última também. Toda a viagem foi regada a mar. Vimos o mar de diversas praias. Pela manhã, de tarde e a noite.
Nossos papos foram poucos, leves, nossos silêncios preencheram mais, não precisávamos de tantas palavras, tínhamos o presente.
Tenho diversas imagens gravadas em minha mente: o sorriso franco olhando o mar, respirando a brisa fresca que subia das ondas, a careta engraçada enquanto tentava descobrir como se come um caranguejo, a cara de espanto vendo a lua cheia no último dia de 2009, enquanto estava cheia de areia de uns caldos que levou do mar, o sorriso cansado a noite de tanto mar e calor, comendo peixe, lagosta, camarão, côco, ou simplesmente estática sentindo toneladas de sensações.
Tenho a imagem dela gravada na memória de diversos momentos e em todos eles ela está sorrindo.
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