quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Silêncios e Imagens - Kate





Se me pedissem para resumir nosso reencontro em duas palavras eu diria: silêncios e imagens. Fui pega-la no aeroporto lotado ansiosa por nos revermos. Somente para variar um pouco o vôo atrasou e a gente já pensa mil bobagens, devido às tantas tragédias que vemos diariamente.

Mas ela chegou tranqüila, bonita, leve e intacta. E bem ansiosa para rever o mar. E foi o mar a primeira imagem que tivemos juntas e a última também. Toda a viagem foi regada a mar. Vimos o mar de diversas praias. Pela manhã, de tarde e a noite.

Nossos papos foram poucos, leves, nossos silêncios preencheram mais, não precisávamos de tantas palavras, tínhamos o presente.

Tenho diversas imagens gravadas em minha mente: o sorriso franco olhando o mar, respirando a brisa fresca que subia das ondas, a careta engraçada enquanto tentava descobrir como se come um caranguejo, a cara de espanto vendo a lua cheia no último dia de 2009, enquanto estava cheia de areia de uns caldos que levou do mar, o sorriso cansado a noite de tanto mar e calor, comendo peixe, lagosta, camarão, côco, ou simplesmente estática sentindo toneladas de sensações.

Tenho a imagem dela gravada na memória de diversos momentos e em todos eles ela está sorrindo.


segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

Novo Começo - Renata


Há pouco mais de um ano, exatamente na virada de 2008 para 2009, fiz uma resolução de ano novo: eu gostaria de ser mais feliz. Essa felicidade seria o resultado da conquista do meu amor próprio, da leveza de conhecer, aceitar e lidar com as minhas próprias limitações e entender, lá no fundo, que eu sou a única pessoa no mundo sobre a qual eu tenho controle. Todas as demais pessoas e situações não estão sob o meu controle, portanto, são imprevisíveis e, sendo assim, eu preciso aprender a lidar com o imprevisível.

A princípio, esse pensamento me pareceu atemorizante! Num segundo momento, porém, libertou-me da angústia de temer o futuro. Fui ao longo do ano aprendendo a viver um momento de cada vez, a saltar em mar aberto, seguida apenas pelo desejo de melhorar, de crescer, de ser feliz. Saí do emprego onde comecei minha carreira sem ter nada em vista e, desde então, tenho emendado um trabalho no outro.

Em agosto de 2009 comprei passagens para passar a virada do ano em Natal com a família que conheci há dois anos atrás, na minha primeira viagem à cidade. Sempre que conversava com Kate a respeito dos passeios que faríamos, eu enfatizava o meu desejo de viver momentos leves, sem necessidade de fazer passeios mil, só para voltar a SP contando vantagens. Por outro lado, eu desejava experiências gostosas, completamente inesperadas e, por isso mesmo, marcantes.

Eu gostaria também de vivenciar a cidade onde a minha prima mora, a Natal que trabalha, que toma ônibus, a Natal que está muito além do que nós turistas costumamos ver. Eu consegui isso. Até passar uma tarde no trabalho de Kate eu passei e também emendei um happy hour divertidíssimo com os colegas dela.

Como não podia faltar em Natal, me enchi de mar, de areia e de sol. Vi a lua surgindo no horizonte, atrás do mar, uma cena que definitivamente está no meu baú de memórias. Experimentei caranguejo e ostra, comi peixes, camarão, bombom de cupuaçú, suco de graviola, cuscuz e tapioca. Água de côco e cerveja também foram muito consumidos no calor, às vezes, sufocante de Natal.

A cada dia a vida me presenteava com uma experiência única, bela e inesperada. Eu fazia a minha parte: de coração aberto eu esperava o melhor e curtia ao máximo o momento no qual eu me encontrava. Fiz questão de dizer - sempre que sentia vontade - o quão feliz eu me sentia de estar ali, naquele momento, vivendo o que eu estava vivendo com aquelas pessoas. E elas também fizeram o mesmo.

Quando eu não podia esperar mais nada da viagem, pois achei que eu já tivesse sido abençoada com tudo, o destino me apresentou a um rapaz de espírito leve e livre, com o qual tive o prazer de curtir uma longa caminhada pela praia de Ponta Negra. Nesse meu penúltimo passeio, pude registrar cheiros, sensações e imagens que me ajudarão a seguir o ano com paciência, determinação e leveza.

Agradeço à vida pela extraordinária viagem.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Não sei... - Kate


O que fazer quando não sabemos o que fazer?
Como agir quando não sabemos como agir?
Minha vida depende, em quase todos os aspectos, de mim mesma.
Preciso mudar?
Devo mudar?
Posso mudar?
Ou devo esperar?
Há momentos em que a melhor atitude a tomar é não tomar atitude alguma.
Lembro um dia em que, quando criança, estava numa rua tranqüila brincando de correr com umas amigas, quando um cão enorme pulou o muro de sua casa e veio em minha direção. Foi aterrador ver aquele cão se avolumar na minha frente e o terror tomando conta de mim. Não sei como consegui raciocinar, lembrando de alguém que me falou (ou vi na televisão, não me recordo) que uma boa defesa contra um cão correndo em nossa direção é ficar parado e simplesmente estaquei. Plantei-me ao chão quase com raiz, pronta para ser derrubada por aquelas patas enormes. E de fato, o enorme pastor alemão me alcançou rapidamente e deu uma volta inteira em mim, cheirou-me com alguma curiosidade e logo se desinteressou de mim, escolhendo ganhar a rua enquanto não era novamente contido naquele quintal.
Foi minha atitude em ficar parada que me rendeu sair ilesa da situação. Hoje poderia estar falando de uma mordida canina que tomei quando criança, mas estou falando hoje que não sofri nada.
A atitude de estacar foi determinante naquela manhã.
Será hoje suficiente?
Será hoje necessária?
Não sei se corro.
Não sei se paro.
Não sei.

sábado, 12 de dezembro de 2009

SILENCIO - Kate

Quantos dias mais vivo, menos sei.

Quantas horas mais registro, tomo consciência de que, apesar de amar as palavras, ditas ou escritas, o silêncio delas fala tão alto que é melhor que dez laudas bem escritas.

Não estou falando de queimar os livros, de banir as letras bem amadas, mas de que se enraíza em mim a certeza de que gestos, ações, atitudes, olhares, falam tão bem quanto um discurso, e as vezes melhor.

Silencio para gritar.

Silencio para revelar

Silencio para dizer quem sou, para dizer o que penso, para expressar.

Silencio mais do que escrevo, à medida que envelheço.

No vão de minhas palavras, falo mais alto, me expresso melhor.

No olhar, carrego todos os pensamentos.

Num gesto, revelo todos os meus segredos...

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

Terça-feira, 8 de dezembro de 2009 - Renata

5:00 da manhã. O despertador do celular toca. Meu consciente me diz que se eu não levantar logo chegarei atrasada. Chove muito lá fora. 5:05 eu levanto, tomo banho, preparo o café e a marmita. Chamo a minha mãe. Continua chovendo muito lá fora.

São 7h20. Respiro fundo e me preparo para sair. Continua chovendo. A avenida onde pego o ônibus está parada. Vejo o ponto[de ônibus]mais a frente e vou matutando sobre onde poderei aguardar pela condução, já que ele está lotado. Muito lentamente o meu ônibus se aproxima; há pessoas penduradas na porta. Dez minutos depois, avisto outro ônibus e me antecipo: corro até ele antes mesmo de ele chegar ao ponto. Está cheio, mas é possível entrar nele. Dirijo-me até o fundo.

Sinto o meu polegar direito dormente, pois é ele que segurou o guarda-chuva por vários minutos. Pratico a respiração do yoga: inspiro, expiro, lentamente. Aproveito para fazer uma oração, em silêncio, pedindo paciência, sabedoria, coragem e generosidade. As minhas bolsas começam a pesar sobre os meus ombros e o ônibus nem saiu do lugar.

Estou bem pertinho de casa. Voltar para lá é um pensamento que não sai da minha cabeça. Por outro lado, a minha responsabilidade grita: hoje sou a única responsável por abrir o laboratório. Tenho que ir, não importa a hora que chegarei. Fico pensando na minha mãe, que logo mais cairia naquela via engarrafada.

As pessoas começam a fazer telefonemas, ligam para seus trabalhos...

- "Vamo entrá todo mundo às 11h, então? ´Tô desceno."
- "O fulano, dá pra você ligar pro Ciclano e avisar que ´tá o mó trânsito? Eu tô ino, mas não sei que horas chego".
- "Escuta, ´tá o maior trânsito, não vo consegui chegar aí. Posso voltar pra casa? Diz logo, porque ´tô aqui do lado!"

Diante da via praticamente intransitável, algumas pessoas começam a descer do ônibus e eu consigo me sentar. Continuo com a minha respiração e decido viver esse caos como uma experiência: tento relaxar diante da minha impotência sobre a situação, observo a reação alheia e começo a contabilizar as horas - normalmente, levo 1h, 1h30 para chegar até o trabalho.

Depois de 1h, conseguimos sair da avenida próxima a minha casa. O trânsito começou a fluir. A Castelo Branco, entretanto, encontra-se parada e o acesso ao bairro vizinho a minha casa está alagado, porque o braço morto do Tietê transbordou e a via está intransitável. Esse fato complicou o trânsito do meu bairro e dos bairros vizinhos. Tento falar com a minha mãe, mas ela não atende o celular - isso quando a chamada é completada. Essa via interditada é a única opção para chegar até a escola onde ela leciona.

O ônibus chega no meio do meu trajeto e pára novamente. O motorista desliga o motor, são 9h30. Eu envio uma mensagem pelo celular para uma colega de trabalho, avisando que estou a caminho, mas não tenho ideia da hora que conseguirei chegar. Depois de várias tentativas, consigo falar com a minha mãe. Depois de quase 1h ela conseguiu chegar até a escola. Eu também consigo falar com o meu chefe, que me orienta e me libera a voltar para a minha casa.

Eu desço do ônibus e caminho cerca de 15 minutos até o terminal de ônibus. Tem uma linha saindo para os lados da minha casa. O percurso segue tranquilo. São 11h. No centro entram várias pessoas no ônibus e, pelos comentários, todos estavam voltando para casa. Além da impossibilidade de transitar pelas vias, o trem não estava funcionando.

11h30. Chego em casa. Entro na internet para saber o que de fato está acontecendo em SP. O caos está em toda parte. O prefeito dá entrevista, diz que as obras feitas até então para preparar a cidade para as chuvas foram importantes, o problema é o volume anormal de água que caiu sobre a cidade. Eu, sinceramente, não sei o que pensar... é preciso tomar alguma providência a curto, médio e longo prazo, porque, se as coisas continuarem dessa maneira, SP irá parar antes de 2012.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Tragédia Grega - Renata

Nesse meu novo trabalho, estou tendo contato com a tragédia grega "As Traquínias", de Sófocles. Antes disso, já havia lido e discutido "Édipo Rei", do mesmo autor, nas aulas de Argumento na faculdade. Naquela época, o gênero não me pareceu tão interessante quanto me parece agora.

Na tragédia, os personagens sabem de antemão o ato funesto que está para lhes acontecer e, na tentativa de evitá-los, acabam por consumá-los. Segundo estudiosos da trama trágica, os Deuses se comunicam com os mortais através do oráculo na tentativa de educá-los para evitar a concretização da tragédia; entretanto, os mortais com suas paixões e limitações, compreendem as mensagens de acordo com os limites de seu entendimento.

Essa peça foi escrita no século V antes de Cristo. O fato de ela ter sobrevivido até os dias de hoje significa, no mínimo, que ela, de alguma maneira, se mantém atual.

Diversas vezes ao longo da vida, me vejo diante de uma situação, cujo resultado futuro está praticamente implícito e, embora não seja tão funesto quanto as revelações do oráculo na tragédia grega, tampouco é agradável. Diante da pretensa ilusão de que tal pressentimento é bobagem, uma força interna me impulsiona a seguir em frente. Eu ajo, concretizo o presságio e padeço.

A razão pela qual a tragédia grega me parece mais intrigante do que nunca é porque hoje identifico-me com os personagens e com as atitudes tomadas por eles. Muitas dessas foram motivadas por paixões que também motivam muitas de minhas atitudes.

Sempre que não compreendo aquela vozinha interior que me orienta a não mexer com fogo e eu me queimo, penso "I should've known better". Mas, o fato é que eu não sabia. Ou sabia e escolhi agir mesmo assim. Lembro-me de um comentário postado pela Pat, minha sábia amiga do campo, sobre a personagem Alice, cuja teimosia a guiou para um mundo repleto de novas experiências do outro lado do espelho.

O meu brincar com fogo faz-me sofrer e chorar, mas também tem me ensinado a sentir a vida, suas dores, frustrações, felicidades e descobertas exatamente como devem ser sentidas: nem mais, nem menos.

Devo confessar que já sofri horrores por não saber sofrer controladamente. Poderia ter tido uma infância e adolescência mais feliz se soubesse naquela época o que sei hoje. Mas, como os estudiosos mesmo dizem, nós agimos sempre conforme as limitações de nosso entendimento.

domingo, 16 de agosto de 2009

Amor Imperfeito - Renata

Quando criança, eu achava que não era digna de ser amada porque meus cabelos não eram loiros, meus olhos não eram claros e meu nome não era Vanessa. Na adolescência, eu achava que meu pai não me amava porque ele foi (é) um pai ausente. Já adulta, cheguei a pensar que, como mulher, talvez eu não fosse digna do amor de um homem... E tudo isso porque a minha concepção de amor sempre esteve associada a uma determinada ideia de perfeição, que deturpou a maneira como eu sentia a minha vida.

Depois de muito sofrimento, de algumas terapias, de muito conversar com amigos e até mesmo de me expor neste blog e receber comentários, tenho vivido a minha vida de uma maneira mais leve. Hoje em dia, aprendi a amar a Renata Mendes Ribeiro do jeitinho que ela é, o que não significa que eu tenha desistido de melhorar algumas de suas características. Meu pai continua ausente, afinal, ele mora do outro lado do mundo, mas sei (e sinto) que ele me ama à maneira dele, que não necessariamente é igual ao que eu costumava idealizar. Quanto a ser digna do amor de um homem, digo que sou digna de amor, afinal sou um ser humano que erra e acerta tanto quanto os demais e que deseja amar e ser amada como qualquer outra pessoa.

Nestes 27 anos de existência, aprendi a ser mais flexível e aberta à vida, tendo a consciência de que todos somos perfeitos em nossa imperfeição, que nem sempre seremos amados pela pessoa que amamos, assim como nem sempre amaremos a pessoa que nos ama. Às vezes, escolhemos amar o outro mesmo não sendo correspondido. Outras vezes, aquele que nos ama faz questão de construir uma amizade para seguir nos amando e sendo amado por nós, mesmo que de outra maneira, diferente da inicialmente desejada. Essas escolhas dependem do quanto amamos o outro e de quanto o outro nos ama e deseja compartilhar sua vida com a gente, mesmo que como um amigo.

Como meu amigo Aggeu sempre diz, o amor incondicional, sem apego, faz bem a todos, mas não é senso comum. Depende de uma mudança na maneira como sentimos o amor e a vida. Como eu desejo desassociar a dor do amor, tenho procurado sentir esse amor incondicional; às vezes, sinto que me aproximo dele, outras vezes ele me parece mais distante. O importante é seguir tentando essa aproximação.


Dedico esta reflexão ao meu amigo Aggeu, com quem compartilho minha busca por uma vida mais leve, mais feliz e com quem aprendo muito sobre mim mesma e sobre o amor.